Em democracia não há votos de segunda!

Junho 13, 2009

As pessoas comuns, como eu e talvez como quem me está a ler neste momento, têm o privilégio de fruir diariamente de um exército de mediadores, entre elas e a realidade. Estes mediadores interpretam pormenor a pormenor os mais diferentes factos, de modo a que compreendamos o visível e invisível do jeito perspicaz e inteligente que só essas mentes treinadas nos entrefolhos do poder são capazes. São políticos, comentadores, analistas, na televisão, na rádio, nos jornais, produtores de opinião qualificados… enfim, uma espécie de serviço nacional de interpretação que vive feliz e confortável a explicar-nos o mundo e os nossos próprios comportamentos e vontades.

Que seria de nós sem a sua orientação interpretativa? Que seria de nós sem a sua bondade de intenções? Só para ilustrar o resultado da ausência de um destes generosos mediadores, peço-lhes que imaginem o país sem a ajuda diária de um deles. Qualquer um! Conseguiram? Não é fácil, pois não? A dificuldade começa logo na escolha, imagino. Eu não dispenso a minha dose periódica de quase todos. Desde o maratonista Pacheco Pereira, passando pelo velocista Pulido Valente, até, numa segunda linha, ao promovido a primeiro ministro José Sócrates. Todos nos ajudam a ver mais… e mais… e mais! E nós não ajudamos muito. Passamos a vida a pensar que é possível mudar o mundo através da vontade democrática das pessoas. Mudar mesmo. Construir uma sociedade onde a justiça social seja a base: o ponto de partida e de chegada do percurso de vida de cada um e de todos. Eles então orientam os nossos olhitos e mostram que o máximo a que podemos aspirar é reclamar umas coisitas aqui e outras acolá. Mudar uns detalhes para que o fundamental permaneça. Não vão os cidadãos lembrar-se com (im)pertinência daquela quadra do poeta António Aleixo que diz: “Vós, que lá do vosso império / prometeis um mundo novo, / calai-vos, que pode o povo / querer o mundo novo a sério.”

Por exemplo, nestas eleições europeias, os mediadores de serviço realçam que os votos no PSD e no PS são votos para levar a sério, são votos de primeira, de eleitores que escolhem governos. Enquanto os votos na CDU e no Bloco são votos de segunda, não valem pela mudança que indicam, são apenas a expressão das reclamações do momento. Baseiam-se estes senhores na sua vontade de imutabilidade da sociedade como princípio inquestionável. É o lema do inicio da industria automóvel aplicado à democracia: todos podemos escolher a cor que queremos, desde que a cor escolhida seja uma só e seja aquela que já escolheram para nós.

Esta visão instrumental da democracia, ao serviço da manutenção da injustiça social em nome da sagrada estabilidade, não serve o interesse da maioria das pessoas, aqui em Portugal, na Europa e no Mundo. A luta pelo aprofundamento da participação democrática é o caminho certo para a esquerda. E os eleitores portugueses que votaram, devem ser todos respeitados na vontade que manifestaram. São todos votos de primeira, porque em democracia não há votos de segunda.

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Continuamente vemos novidades

Maio 7, 2009

“… Continuamente vemos novidades, / Diferentes em tudo da esperança; / Do mal ficam as mágoas na lembrança, / E do bem, e do bem, (se algum houve…) as saudades. // Mas se todo o mundo é composto de mudança, / Troquemos-lhe as voltas qu’inda o dia é uma criança.” – Assim cantou José Mário Branco, pela primeira vez, há quase quarenta anos, o inspirado poema que Luís Vaz de Camões tinha escrito quatrocentos anos antes.

O tema mudança é central em toda a actividade humana e também, obviamente, na luta política. O que não é comum, é alguém candidatar-se a um terceiro mandato consecutivo com um slogan em torno da mudança. Nas escolhas políticas, quem ambiciona diferente apela à mudança e promove-a. Quem se sente confortável com a situação que vive, procura preservá-la. Isto pensava eu. E talvez também pense o leitor que me acompanha. Mas, naturalmente, os homens do marketing da candidata do PSD à Câmara de Caminha têm uma perspectiva diferente. Como nos compete a nós, receptores dessa comunicação, descodificar o sentido da mensagem “a mudança tem um nome – (assinatura de) Júlia Paula Costa”, coloquei a mim próprio o desafio de formular algumas hipóteses de leitura.

A primeira, confesso que me envergonho de a ter pensado, mas não tenho o direito de a esconder: Todos sabemos que há muitas espécies que marcam o território de uma forma simples e que alguém menos atento pode confundir com a satisfação de outras necessidades. Ou seja, a candidata ainda no poder, salpica o concelho com a palavra “mudança” para tentar evitar que outros façam isso. É uma ideia própria de quem luta pela sobrevivência.

A segunda hipótese, talvez a considerem mais óbvia: A actual presidente da câmara, quando se candidatou pela primeira vez, em 2001, enalteceu a consistência da equipa, com que se apresentava, como um valor de confiança. Disse-o de forma entusiástica nos debates em que participou. Nomeava para o efeito a experiência e a idoneidade de duas pessoas que já não vemos ao seu lado. Por isso, vai mudando a sua equipa para que tudo fique confortável ao seu estilo de exercício de poder. É uma ideia própria de quem quer rodear-se de conformismo e obediência.

A terceira hipótese, talvez seja a mais simpática: Após dois mandatos marcados pela desorientação estratégica, mas com máquinas e operários em movimento no centro das duas vilas do concelho nos meses que precedem as eleições, a candidata quer mudar! Continua sem saber para quê, nem como, nem porquê. Mas tem uma vontade frenética de mudar! É uma ideia própria de quem está sob alguma instabilidade emocional.

A quarta hipótese é a de que a dra. Júlia Paula mudou, pelo efeito do poder. Não tem paciência para os detalhes democráticos. Não gosta de perguntas desalinhadas. Perturba-se com opiniões diferentes. Os homens do marketing perceberam isso e identificaram no seu nome o nome da mudança. Esta parece-me uma leitura honesta e simples. O que possa ter mudado no concelho é menos relevante do que o que parece ter mudado na principal protagonista deste “filme”. Os munícipes são uma espécie de figurantes. O enredo está estruturado para destacar a figura principal. Pode ser uma ideia interessante para a própria, não para o concelho de Caminha.

Claro que muitas outras são possíveis e todas estas interpretações são absolutamente especulativas. Por isso, vamos todos aguardar pelas leituras oficiais do PSD.


Caminha Jovem

Abril 15, 2008

Os especialistas em marketing falam em canibalização, quando uma empresa lança um novo produto contra os seus próprios produtos incumbentes. Normalmente, estas acções são dirigidas a mercados sem grande potencial de crescimento, dizem também os entendidos.

Será que o fenómeno “Caminha Jovem” se inscreve nesta teoria?

Caminha Jovem é (ou foi, não sei bem) uma associação de jovens, nascida e criada nos interstícios do actual poder camarário caminhense. Nunca se tinha visto tanta pompa e circunstância na fundação de uma associação juvenil. Muitos fatos, muitas gravatas, presidente da CM, governador civil, cobertura mediática… logo na festa de inauguração. Cartazes e outros meios a rodos para divulgar cada pingo de actividade. E a coisa foi andando, até perto do final do primeiro mandato do PSD na câmara de Caminha… O PSD volta a ganhar eleições no concelho e reconhecem-se os méritos juvenis com empregos camarários. E a associação eclipsou-se, ao que parece.

Será correcto dizermos que foi canibalizada pela câmara? Se especialistas no assunto tiverem pachorra para visitar este blogue, ajudem-me a perceber melhor este fenómeno local.


Na Serra d’Arga ou em Paris

Maio 31, 2004

A identidade das pequenas comunidades locais ou regionais, das nações ou de comunidades como a europeia, vai-se estruturando em volta de sentimentos e ideias de pertença e de exclusão. Coisas simples que se reflectem em atitudes quotidianas de proximidade fraterna, por via da partilha de responsabilidades. Não se trata de anular a cultura de cada um. Muito pelo contrário, é pela sua afirmação, num encontro de diferenças respeitadas e de propósitos de bem-estar comum valorizados que se consolida uma verdadeira identidade colectiva.

Mas, e um cidadão de uma aldeia do interior do concelho de Caminha, de Paredes de Coura ou de Melgaço, entregue à sua realidade de abandono secular pelos políticos do país, sentirá vontade de participar nas eleições para o parlamento europeu do próximo dia 13 de Junho? Sentirá responsabilidade pelo futuro da Europa? Olhará para si próprio como cidadão europeu? Num primeiro impulso, talvez não. Solicitam-no para uma escolha que não lhe parece resolver nada do que o aflige. No entanto, se olhar com vontade de ver, encontrará razões muito fortes para se fazer ouvir neste escrutínio.

Os partidos grandes mais não tem feito do que distanciar-nos da Europa dos cidadãos para nos venderem a Europa feita à sua medida. A Europa dos fundos milagrosos. A Europa das negociatas. A Europa dos que mandam por conta da subserviência humilhante dos que obedecem.

Chegaram, nos últimos tempos, ao ponto de se mostrarem dispostos a subscrever um Tratado Constitucional Europeu onde a democracia política entra definitivamente no reino do faz-de-conta. Esta proposta de constituição europeia que pretende perpetuar uma união de governos com um directório dos países mais ricos, é o caminho inverso ao de uma Europa Democrática, fundada na vontade expressa dos seus cidadãos. Os resultados das próximas eleições europeias podem, de alguma forma, apontar uma vontade de cidadania contra estas imposições. Para isso, é necessário que o direito de voto seja consciente e massivamente exercido.

Para além desta questão, elementar para a construção europeia, colocam-se outras, não menos importantes, como a renúncia à corrida aos armamentos para concentrar o investimento público europeu na diminuição das desigualdades, no combate à fome e à pobreza, na criação de emprego, na saúde, na educação e na criação cultural, no ambiente, etc, etc. Por tudo isto, votar nas eleições de 13 de Junho é uma oportunidade que não deve ser desprezada sob pretexto algum. É tempo de manifestarmos opções claras por uma Europa da solidariedade, da democracia e contra a guerra e o terrorismo – seja ele de grupos desesperados ou de estados com ambições imperiais. E tudo isto importa aos cidadãos europeus na Serra d’Arga como em Paris.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Maio de 2004)


Atitudes castrenses

Março 28, 2004

Quando se fala de cultura castreja, está a falar-se de povos que viveram no noroeste da península ibérica até, provavelmente, aos limites do rio Mondego, durante um período que terá começado pelos finais da Idade do Bronze até ao tempo, já histórico, da romanização. E, apesar de não se conhecer, ao que parece, unidade política e social no conjunto dos povos que nos deixaram esses vestígios, há nítidas características comuns: na forma de construir os povoados protegidos no alto dos montes – os castros, também designados por cristelos, cividades ou citânias – na simplicidade dos utensílios, nas suas crenças sobre a vida além da morte ou na posse colectiva da terra. O concelho de Caminha possui vestígios dessa cultura em diversos pontos do seu território – em Seixas, em Vilar de Mouros, nas Argas, em Gondar, em Âncora, etc. O castro do Coto da Pena é um dos mais importantes.

A recente polémica a propósito de mais um loteamento junto a este castro é, para além das quase inevitáveis simplificações politiqueiras, um excelente momento para tentarmos compreender até que ponto prezamos ou não o património cultural que possuímos.

Em situações tão sensíveis, como a de intervir com obras junto a uma estação arqueológica, todos os cuidados são poucos. Não basta aliviar a consciência e afastar as más línguas com uma sustentável interpretação da lei. Não basta encontrar em práticas passadas a jurisprudência legitimadora dos excessos de risco no presente. Porque, ou fica claro para todos que o interesse público e a defesa do património estão absolutamente assegurados pelos eleitos, ou não. É muito mau que haja circunstâncias em que interesses privados, mesmo quando legítimos e legais, se transformam numa obsessão perturbadora do normal funcionamento institucional.

A câmara de Caminha enredou-se, em relação a este assunto, numa trama de comportamentos e reacções que só não nos surpreende por termos chegado àquele estado infeliz de nada nos surpreender já. É a própria câmara que nos informa com toda a naturalidade, no seu último boletim municipal, que precisou de receber quatro vezes a solicitação do IPPAR para mandar suspender as obras do referido loteamento. O Instituto pediu para as obras pararem pela primeira vez a 24 de Novembro e a presidente da câmara de Caminha agiu nesse sentido apenas em 4 de Fevereiro. A cronologia dos factos, descrita pela câmara para nos esclarecer sobre a correcção dos seus procedimentos, deixa-nos a impressão de um tratamento excessivamente prioritário, a par de uma teimosia notável para que a obra não parasse. Até por se tratar de um licenciamento concedido ao pai de um vereador, o bom senso aconselharia prudência acrescida, que a presidente da câmara ignorou ao não corresponder de imediato às solicitações do IPPAR, ordenando a suspensão dos trabalhos.

Agora, a fuga para a frente, com uma campanha de propaganda a vitimizar-se e a contra-atacar, lembra o fenómeno das areias movediças em que quanto mais nos mexemos mais nos afundamos, e aí sim, tornamo-nos vítima, mas de nós próprios.

Quando a senhora presidente da câmara de Caminha fala, a propósito deste assunto, em “cultura castrense” ficamos a suspeitar de que estes temas estarão completamente arredados da sua atenção, porque, embora a palavra castrense tenha, na sua origem, também a ver com castros é usada habitualmente para designar assuntos militares de todos os tempos. Enquanto aquilo que podemos estudar em lugares como o Coto da Pena é a cultura castreja. Assunto mais limitado no tempo, mas muito mais amplo na vivência, cujos vestígios não nos interessarão a todos do mesmo modo, mas que qualquer câmara tem a obrigação indiscutível de defender de forma inequívoca.

Em jeito de conclusão atrevemo-nos a pedir, para este caso, um pouco mais de atenção aos vestígios castrejos e um pouco menos do pior da cultura castrense.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Março de 2004)


O Senhor dos Anéis

Dezembro 31, 2003

“No reino de Valinor foi criada Valimar, a cidade dos Valar, no centro do continente de Aman. O Círculo do Julgamento estava situado exactamente entre Valimar e o Monte Ezellohar.” Estou a imaginar a cara dos que me estão a ler: perplexos, com esta estranha descrição. Entre os mais novos, talvez não! Alguns identificarão facilmente este espaço, na geografia de ficção d’ “O Senhor dos Anéis”. Curiosamente, a designação escolhida para uma Comunidade Urbana coincide com a palavra criada por Tolkien para o centro de um território imaginado como cenário de violentíssimas disputas de poder: Valimar. O acaso tem destas coisas!

As movimentações em torno da reorganização dos espaços intermunicipais têm feito emergir uma realidade política local condicionada pelo tenso equilíbrio entre pequenas lideranças ciosas dos seus pequenos feudos. Na raiz das decisões predomina uma lógica de ambições, de humores e desamores dos presidentes de câmara. Fazem-se cálculos de poder pessoal para tomar opções que depois se justificam com marketing político. Ontem, definiam-se afinidades a partir da geografia, da cultura e da história comuns proporcionadas pelos rios e respectivos vales. Hoje, porque esta justificação não se ajusta aos superiores interesses dos chefes, contratam-se excelentes técnicos para conceber outras linhas de força, capazes de servir como instrumento de novas razões circunstanciais. O território, as populações, as raízes culturais, o sentido de identidade… são materiais moldáveis, com que se fazem e desfazem construções efémeras para jogos de poder.

O acesso aos fundos comunitários, ao invés de constituir um estímulo à concertação de objectivos, acrescenta a esta realidade um fenómeno de “caça aos dinheiros da Europa, antes que acabem!” estimulando ansiedades, ilusões e desconfianças de todo o tipo. Ou, em momentos de aperto, alicerçando raciocínios como aquele com que fomos brindados recentemente quando alguém, com o brilhantismo que lhe conhecemos, afirmou que “não comemos identidades”. Tornando óbvio, ao falar assim, a ânsia de garantir um lugar à mesa, e declarando-se disponível para comer qualquer coisa. O seu grau de exigência é… fisiológico, como, em esforço de compreensão, me tentou explicar um jovem amigo, conhecedor da pirâmide das motivações de Maslow, procurando, com essa teoria, emprestar alguma dignidade ao populismo demagógico do argumento.

Afinal, o que está em causa neste processo? Apenas um alinhar de tácticas para apanhar uns dinheiritos do poder central e da Europa, para realizar obras de fachada que iludam os eleitores? Ou algo mais sério, que poderá constituir-se em estratégia de desenvolvimento integrado e sustentável de âmbito sub-regional? Da autenticidade desta primeira atitude dependerão todas as demais considerações. Porque, embora estejamos a responder a condições impostas por má legislação – até pelas inúmeras incógnitas e confusões que suscita – é possível torná-la muito pior, se enveredarmos pela irresponsabilidade de a utilizar uns contra os outros, entre concelhos com história e carências comuns, cuja unidade poderá ser decisiva para superar obstruções e estrangulamentos que persistem impedindo o seu desenvolvimento.

Quem tenha estado minimamente atento às declarações dos diferentes protagonistas da política no Alto Minho, facilmente tira três conclusões:

Primeira – Nunca foram invocadas razões políticas minimamente convincentes para justificar a divisão. Apenas motivações de natureza pessoal dos autarcas envolvidos.

Segunda – A transversalidade das opiniões no conjunto dos partidos políticos, que tem sido referida para suavizar as contradições dos interessados em dividir, tem a sua génese na afirmação do poder pessoal fora e dentro dos partidos, clara e absolutamente divorciada dos interesses colectivos.

Terceira – Objectivamente, a única organização partidária que colhe vantagens de poder com esta divisão é o PSD. Estamos perante uma situação em que a expressão popular “dividir para reinar” faz todo o sentido.

Feita esta análise pode-se, mesmo assim, reconhecer que Caminha, isolada, não possui a solução para resolver este problema. E, ao que sabemos, na pessoa da senhora presidente, a câmara também não procurou, sequer, fazer o que quer que fosse. Refugiou-se em silêncios. Enquanto outros iam manifestando as suas opiniões e o debate ia surgindo naturalmente, ela prometia dar a palavra ao concelho e só depois decidir. Até que, ao perceber os inconvenientes, para a sua posição, de uma discussão pública sobre o assunto, acelerou todos os passos. E, num curto espaço de tempo, tudo passou a estar claro: o executivo camarário aceita a divisão e quer colocar Caminha em ruptura com os seus parceiros do Vale do Minho reforçando a posição do Vale do Lima. Vai mais longe na sua teoria sobre a lógica desta nova comunidade, a que se juntará Esposende, e ao defini-la alicerçada no corredor litoral – Caminha, Viana e Esposende – desvaloriza a força estruturante dos rios e respectivos vales. Diz a senhora que o tempo dos vales acabou e agora o que nos garantirá dinheiro da Europa é o litoral. No entusiasmo da novidade, vai-nos exigindo que “a deixemos trabalhar”, o que equivale a um “calem-se, não suporto opiniões diferentes das minhas”. Só que estes assuntos são demasiado importantes para depender dos humores e dos compromissos pessoais de alguns. Os cidadãos do concelho deverão reflectir, ser ouvidos e a sua vontade colectiva prevalecer nesta decisão. Se a senhora presidente não entendeu essa necessidade, resta-nos acreditar que a assembleia municipal funcione, reponha serenidade no processo e permita aos munícipes manifestarem em consciência a sua vontade inequívoca, para que a decisão que vier a ser tomada reflicta um propósito colectivo. Aí sim, independentemente do partido que representem, essa é a obrigação moral dos eleitos, no respeito pela verdade democrática.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Dezembro de 2003)


Forças vivas, umbigos e disparates

Novembro 30, 2003

As associações intermunicipais funcionam desde o início dos anos noventa como espaço de convergência de interesses comuns entre grupos de municipios próximos geográficamente. Mais orientadas para potenciar a captação de fundos financeiros do que para responder às mais profundas necessidade estratégicas globais, corresponderam durante estes anos, apesar disso, a um passo positivo no desenvolvimento de algumas soluções partilhadas. Legislação de Maio deste ano, imposta pela maioria psd/pp, empurra os municipios para um acelerado processo de reorganização desta intermunicipalidade, colocando nesse espaço novas figuras juridicas de poder supramunicipal não eleito directamente pelos cidadãos, para o qual são transferidas algumas competências dos actuais concelhos. O que pode resultar deste processo não é claro para ninguém. Que toda a sua concepção aparece atabalhoada e geradora de conflitos, disso não há dúvida.

Das duas associações existentes no Alto Minho os altominhotos esperariam bom senso e sentido da identidade sub-regional que, durante séculos, se tem afirmado com clareza. Perante leis capazes de gerar a confusão, bom seria que os políticos locais procurassem respostas capazes de as tornar o mais positivas possível, afirmando propósitos de unidade. Não foi isso que aconteceu: os responsáveis da Associação do Vale do Lima, especialmente o dr. Defensor Moura e o dr. Francisco Araújo, rapidamente afirmaram as suas vontades de que a divisão se mantivesse. Os argumentos são superficiais. As verdadeiras razões terão mais a ver com cálculos de poder pessoal do que com os interesses das populações.

A estratégia distrital do psd, liderado pelo dr. Francisco Araújo, é conhecida. Resulta mais de ambições de hegemonia partidária do que de qualquer outra razão. Este dirigente nacional do psd, e autarca dos Arcos de Valdevez, está disposto a dividir o distrito para reforçar o seu poder regional. Esposende e Caminha, a concretizarem-se as adesões à nova comunidade, serão conquistas emblemáticas neste projecto de afirmação do PSD do dr. Araújo, apoiado por um dr. Moura apostado na beleza do seu umbigo banhado pela foz do Lima e motivado pela vontade de manter longe de si o seu adversário no interior do ps, o dirigente distrital do ps e actual presidente da associação do Vale do Minho.

E, no meio disto tudo, temos uma dra. Júlia Paula a tomar decisões como quem faz compras de Natal para pôr no sapatinho do PSD. Caminha poderia ter desempenhado um papel na defesa da unidade altominhota. Deveria tê-lo feito. Mas isso tinha exigido coragem, independência político-partidária, enraizamento cultural… enfim, coisas que no entender da presidente do nosso municipio não dão de comer a ninguém! Preferiu alinhar em cálculos alquimicos sobre os bolos a dividir. Bolo cuja decoração “ambiental” não convencerá sequer os próprios, a julgar pela convicção com que o defendem.Daí a necessidade de acrescentar alguns condimentos falsos, como vimos esta semana nas acusações feitas à Câmara de Cerveira sobre as contas do Aterro Sanitário. Tudo serve para justificar a escolha, já que as verdadeiras razões não são minimamente convincentes.

O debate com os caminhense prometido pela presidente da câmara, se acreditarmos que aconteceu, terá sido tão restrito que dá até para desconfiar que as “forças vivas do concelho” são algo mais secreto do que a Maçonaria. Fica-nos, assim, a pior das impressões. Da opção tomada, propôr à assembleia municipal a adesão à Valimar, resta-nos a esperança de que nesse orgão exista independência de todos os seus membros para travar este disparate.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Novembro de 2003)


In vino veritas

Outubro 31, 2003

In vino veritas – exprime em latim a popular ideia de que sob os efeitos do álcool transparecem os aspectos mais autênticos do carácter de cada um. Se substituirmos o vinho pelo poder, em algumas pessoas, obtemos um efeito em tudo semelhante. Igualmente revelador. Do mesmo modo despudorado. No limite, destrutivo, dos próprios e dos outros. Mas verdadeiro, ao desvendar o carácter de quem o pratica, sob o efeito destes vapores inebriantes da ilusão do “quero, posso e mando”.

Hoje, recorro às páginas do Caminhense para manifestar a minha solidariedade com os presidentes das juntas de freguesia de Argela, Vilar de Mouros e Lanhelas, bem como com os representantes da comissão de moradores de Vilar de Mouros e da Corema. Ficamos a saber pelos jornais que a Câmara de Caminha entende que estas pessoas devem justificar perante o tribunal as suas atitudes de cidadãos empenhados na defesa do ambiente. Está em causa uma manifestação exemplar sob o ponto de vista cívico. Os manifestantes formaram um cordão humano, de algumas centenas de metros ao longo da marginal de Caminha, expressando preocupações sobre o futuro traçado do IC1. É com orgulho que afirmo também ter participado nessa acção. Fizemo-lo sem algazarra que incomodasse alguém. Sem alterar o normal andamento do trânsito. Sem o menor incidente… no mesmo dia em que o psd se comiciava com pouca gente, já que se tratava de um comício nacional, mas com muita algazarra, ocupando o espaço central da vila, com grandes perturbações no transito e nos hábitos das pessoas que cá vivem. Transtornos, no entendimento de alguns, de que nos devemos envaidecer, já que estamos a falar do partido do primeiro ministro de Portugal, a quem devemos o ar que respiramos… no seu melhor, claro! Porque quando se torna irrespirável é óbvio que o devemos a outros. Por isso a maioria dos portugueses votantes escolheram estes. Simples. Barato não é! E se dá milhões, não é para a esmagadora maioria que trabalha. Mas adiante!

A presidente da câmara talvez não tenha gostado de tanta serenidade na indignação. Tanta dignidade nos protestos. Tantos a protestar responsavelmente. E as televisões a falarem do assunto. Os jornais a fazerem primeiras páginas, com esta pacata manifestação. É compreensível, na perspectiva de quem se inebria nos vapores do poder, a dificuldade em digerir tudo isto. Tentou, de véspera, encontrar na lei impedimentos para a manifestação, com pormenores formais e habilidades de comunicação. Não surtiu efeito. Resta-lhe, agora, insistir na afirmação do seu poder. Mostrar quem manda. Procurar algum consolo nos tribunais. Creio que voltará a não surtir efeito. Porque todos sabemos que o que move estas pessoas é suficientemente justo e razoável. A manifestação, que em boa hora convocaram, foi um momento de cidadania responsável. Por isso de que os poderão acusar? De estarem demasiado lúcidos?

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Outubro de 2003)


A nossa desdita e a dita ponte

Outubro 31, 2003

Terminado mais um período de consulta pública sobre o impacto ambiental do IC1, acentuam-se as razões de preocupação. O que poderia ter sido um momento de unidade concelhia, em defesa de valores ambientais inequívocos, não mereceu da parte do PSD de Caminha mais do que um cerrar fileiras partidárias em torno da câmara. O problema regional do congestionamento da N13 é sério e justifica o nosso maior esforço. Mas é, também, nossa obrigação evitar que sejam impostos, ao concelho de Caminha, sacrifícios desproporcionados. A recusa sistemática da câmara em aprofundar estes problemas, procurando situar a contestação em motivações políticas mesquinhas, revela um jogo político hipócrita e um desprezo absoluto pela realidade concelhia. Para agravar a situação, tivemos um secretário de estado do ambiente mais empenhado em desvalorizar as alternativas aos projectos do concessionário do que em acautelar as questões ambientais, o que é, no mínimo, ultrajante e prenuncia o resultado desta fase do processo.

Este troço do IC1 assume, para o partido do poder, importância especial: foi objecto de diversas promessas eleitorais de todas as forças políticas; fez parte das reivindicações do autarca de Ponte de Lima na famosa aprovação tangencial do orçamento de estado em 2000 e finalmente, em Setembro de 2001, ainda na governação do engenheiro Guterres, após o respectivo concurso público, foi adjudicado à Euroscut com base num contrato de concessão que responsabiliza a empresa pelo anteprojecto, pelos estudos de impacte ambiental, bem como pelos projecto, execução da obra e respectiva exploração. Nesta altura, o PSD aposta na obra com uma duplicidade politiqueira: tudo quanto possa trazer de bom será graças ao seu empenho manifesto; os estragos que possa causar, esses, dever-se-ão à irresponsabilidade do apressado contrato de concessão socialista.

As populações, alheias a estas tricas, que aguentem com as perdas de qualidade de vida, que calem a defesa do seu ambiente, que se privem de escolher o melhor para um futuro enraizado na sua identidade e na das suas terras.

Os senhores do poder durante diversos governos desleixaram este assunto e não querem, agora, despender esforços num problema para o qual já encontraram “uma solução política”.

A Câmara de Caminha, cujo papel deveria ser o de defender os interesses concelhios, preferiu sempre argumentos contraditórios e superficiais justificando assim o seu permanente alinhamento com as opções da empresa concessionária. Nada quer ver. Nada quer ouvir. A sua boca abre-se apenas para desempenhar o papel de zombie hipnotizada pelas toneladas de alcatrão miraculoso. Repete mecanicamente a sua fé no desenvolvimento que o IC1 vai proporcionar ao concelho, principalmente, revela a câmara, se deixar facilitada a ligação a uma futura ponte internacional em território concelhio. É hoje claro, o preço absurdo, em sacrifício ambiental, que esta câmara é capaz de subscrever em troca dessa ponte. Ou melhor, por apenas um pequeno reforço da ideia de que a dita ponte venha a ser possível.

Em 2001 diziam-se decididos a fazer “pressão tenaz, junto do governo para que fossem feitos e garantidos todos os estudos necessários para se aferir da possibilidade de construção de uma ponte internacional entre Caminha e La Guardia” (sic). Daí para cá, o discurso passou, desta apologia da ponte, que aparentava alguma prudência ao colocar a prioridade em estudos prévios de viabilidade, para uma atitude absolutamente irracional de sacrificar tudo e todos para alimentar esse projecto. Dos ditos estudos, que reivindicavam com eloquência, não soubemos mais nada.

Os tempos agora são outros. A paixão por essa hipotética ponte justifica quaisquer sacrifícios à integridade ambiental do concelho. Ficamos a saber que Argela, Vilar de Mouros e Lanhelas são insignificantes para quem sonha com pontes sobre o rio Minho.

Queiram os cidadãos de Caminha repor o bom senso e impedir danos irreversíveis ao seu concelho e encontrarão formas de enfrentar esta desdita, com atitudes responsáveis e solidárias.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Outubro de 2003)


(Cam)peões da política!

Agosto 31, 2003

A Câmara Caminha arrisca-se a ter, ao que parece, no senhor João Silva, presidente da concelhia do PSD, o seu guardião omnipresente. Capaz de se bater com todos. Por tudo. Ao ataque e à defesa. Com os argumentos que estejam à mão. Bons ou maus, pouco importa. Porque o senhor Silva é um lutador daqueles a quem não se podem pedir boas maneiras, nem respeito pelos adversários, nem por ele próprio… o senhor Silva investe à bruta com a inércia das emoções baratas sobre tudo quanto mexa. Parece ser este o contexto em que escreveu mais uma das suas prosas de combate no último “Caminhense”, na sua missão de guarda avançada. Um notável exemplar do seu estilo inconfundível. Começa o texto com uma arrasadora consideração sobre a minha aparência – assustadora, pelos vistos! Confesso ter-me sentido um pouco embaraçado com este tipo de abordagem, embora seja assunto que me ultrapassa completamente. Se o senhor Silva se sente assustado, que posso eu fazer? Lamento, mas trata-se de um problema do referido senhor, não meu.

Estas atitudes do lider local do PSD tornam cada vez mais evidente algumas das razões porque tanta gente se afasta das actividades políticas. A falta de educação, o trauliteirismo verbal e uma absoluta incapacidade para interpretar as posições dos adversários tornam o convívio democrático uma experiência degradante, quando nos confrontamos com estes “(cam)peões da política”.

Mas avancemos para o objecto da divergência: as novas armas do concelho. O que eu expressei, no texto a que o senhor presidente do PSD de Caminha reage, foi a minha perplexidade perante a mudança das armas, não pela regularização do seu processo legal. Sobre a legalização, é óbvio que estamos todos de acordo. As minhas dúvidas prendiam-se com o seguinte: se aos símbolos do município para cumprir a lei faltavam a aprovação em assembleia municipal, publicação em Diário da República e respectivo registo na entidade competente, o que levou a câmara à mudança? Porque que não legalizou as que estavam em uso? É verdade que adianto algumas hipóteses pouco lisonjeiras para a câmara e para o senhor Carlos Mouteira. No entanto, legítimas, no quadro da ausência de esclarecimentos capazes de as excluir. O que se esperaria dos envolvidos, em circunstâncias normais, seria a apresentação das razões da necessidade deste novo desenho, a sua sustentação histórica por oposição ao anterior, a sua indispensabilidade. Mas sobre isso o silêncio mantém-se. E as dúvidas subsistem. Há quem especule sobre o assunto no resguardo da conversa a meia boca, naquele típico ambiente da coscuvilhice maledicente. Houve quem questionasse publicamente de forma franca e frontal, que foi o meu caso. Não adianta fugirem à questão. Todas as evasivas, toda a má educação e toda a arrogância mais não fazem do que convencer-nos de que querem lidar com os assuntos do concelho de Caminha como se de uma coutada pessoal se tratasse, o que é intolerável sob qualquer ponto de vista. Há munícipes que esperam explicações sérias e a Câmara Municipal tem a obrigação democrática de as dar.

A terminar o seu texto o senhor João Silva em nome da Comissão Política do PSD diz entender que há momentos em que o que está em causa é o Município de Caminha e aí devemos estar todos unidos, seja qual for a nossa opção política. Não posso deixar de concordar. Mas estou a pensar, creio, em assuntos diferentes dos que passaram pela sua cabeça. Estou a pensar no IC1, principalmente. Com o fim do período de Consulta Pública sobre as alternativas à ligação B2 a aproximar-se, não podemos deixar de nos preocupar seriamente com os projectos da Euroscut apoiados pelo PSD. A concretizarem-se, representarão perdas irrecuperáveis para um concelho que tem encontrado na natureza as suas poucas oportunidades de desenvolvimento e que ao permitir agressões irreversíveis a espaços fundamentais do seu território e das suas gentes estará a abrir caminho à descaracterização e a um modelo de falso progresso, sem respeito pela natureza e pelas pessoas. Quererá o senhor Silva abandonar a sua lógica estritamente partidária e abraçar esta causa concelhia? Porque todos não somos demais para impedir a aberração ambiental que ao ameaçar Argela, Vilar de Mouros e Lanhelas está a por em causa o concelho de Caminha na sua integridade global, será uma excelente oportunidade para por esta sua teoria em prática. Fica o desafio.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Agosto de 2003)