Caminha com novas armas

Julho 31, 2003

Quem me lê já ouviu, concerteza, contar inúmeras anedotas de doidos. Pois aguentem com mais esta e acompanhem-me, se quiserem, no que dela se confunda com a realidade da nossa vida concelhia:

Um sujeito passava calmamente junto a um hospital psiquiátrico e, subitamente, sem que nada o fizesse prever, cai-lhe em cima um tijolo. Levou as mãos à cabeça ferida. Olhou em volta ainda atordoado e viu dentro de grades, no hospital, um homem que freneticamente gesticulava para que ele o visse. O suposto “louco” parou o frenesim dos gestos e ainda ofegante começou a explicar-se. Foi ele quem atirou o tijolo. Lamentava. Lamentava muito. Mas não lhe tinha sobrado outra solução. Já tinham passado muitas semanas desde que o encarceraram naquele hospício e todas as tentativas para falar com alguém de fora tinham sido em vão. Estava já em desespero de causa. A ideia de agredir alguém com o tijolo para ser ouvido surgiu-lhe naquele dia, no limite das suas forças para resistir à conspiração que a família e médicos sem escrúpulos montaram para se apropriarem dos seus bens. Precisava que alguém o ouvisse e denunciasse a situação às autoridades. O sujeito agredido à medida que foi ouvindo a história dramática do outro foi aceitando a pedrada como necessária, a história como verdadeira e dispôs-se a colaborar. Iria dali directo às autoridades mais próximas para pôr cobro àquela injustiça. Estava convencido. Podia contar com a sua solidariedade. Despediram-se com um aceno fraterno de cumplicidade resistente. O homem de cabeça partida ainda não tinha acabado de pousar o pé para o segundo passo já lhe estava a cair novo tijolo na cabeça. Gritou de dor. Olhou para trás, atordoado, confuso… Lá estava o outro novamente a gesticular e aos gritos: “Não se esqueça! Não se esqueça!”

Assim, nas anedotas como na vida real, um gesto, uma atitude, uma palavra… confirmam ou desmentem o que está a ser afirmado. Um discurso de seriedade e de rigor não se alimenta com práticas menos claras, com sinais de inconsistência flagrante entre formas e conteúdos, com suspeitas de interesses nebulosos ou com manipulações da boa-fé alheia.

As novas Armas do Concelho de Caminha nascem envoltas nesta atmosfera de “história mal contada”. A actual câmara foi confrontada com um pedido da Direcção Geral das Autarquias Locais dos registos legais e desenhos em suporte digital dos símbolos heráldicos em uso no concelho. Constata que os mesmos não se encontram devidamente legalizados. Do que conseguimos perceber o processo iniciado em oitenta e seis parou após aprovação em reúnião de câmara. Aparentemente por negligência. Não chegou a ser apresentado à assembleia municipal para a respectiva aprovação, posterior publicação em Diário da República e correspondente registo na Direcção Geral. O aproveitamento político da situação exigiu dramatismo, “a primeira tijolada”, o quadro foi pintado de negro profundo. A situação era, no dizer do executivo camarário PSD, de tal forma grave que justificava medidas drásticas. Imprimiram provisóriamente material gráfico da câmara com o símbolo da República Portuguesa em substituição da simbologia anterior. Deixou de se hastear a bandeira. Chegou-se ao ponto de pôr funcionários a apagar com corrector o anterior símbolo do concelho, nos envelopes que enviavam aos munícipes, tal era o zelo e o rigor! A partir de certa altura deixou de se perceber se o que estava em causa era o cumprimento de determinadas formalidades legais, ou se existiam na anterior heráldica concelhia elementos gráficos ou simbólicos que não estavam de acordo com os critérios do Instituto Português de Heráldica. O facto de terem incumbido alguém de desenhar novas armas para o concelho, levou muitos a pensar que assim seria. De outro modo poderia suspeitar-se que se tratava apenas de um capricho. Ou, pior, de oportunismo de quem por vaidade irresponsável altera por alterar. Ou para o senhor Carlos Mouteira poder acrescentar ao seu curriculo o desenho dos símbolos de um concelho, com aparentes vantagens pessoais, já que é fornecedor deste tipo de serviço às juntas de freguesia. Até possui uma página na net chamada “Freguesias de Portugal” onde o símbolo da República Portuguesa se apresenta juntamente com o título, em ambiente que poderá induzir os menos atentos a pensar que é um site oficial da administração pública, quando de facto não é. Mas continuemos! Certo é que, enquanto o diabo esfrega um olho, a assembleia municipal é confrontada com a nova heráldica para aprovar. O clima das últimas semanas dava a qualquer objecção um carácter inoportuno. Só dois deputados municipais se abstiveram. Caminha tinha novo Brasão. No passado dia vinte e seis a Câmara associou às comemorações da Outorga do Foral a apresentação dos novos símbolos. O evento foi anunciado com grandiosidade. Fui. Não ouvi nenhuma explicação sobre esta mudança. Na brochura que foi oferecida ao público nem uma pequena nota sobre o assunto. Entretanto, assisti à apresentação dos novos símbolos ao som de música que me pareceu galega. Senti “a segunda tijolada”.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Julho de 2003)


Política-espectáculo

Julho 31, 2003

Ilusionismo e audácia na política-espectáculo.

Presdigitadores, mágicos e ilusionistas sempre me fascinaram. Os desafios que colocam aos espectadores, assumidos como estímulos à inteligência; a qualidade estética e a subtileza do jogo manipulador dos sentidos; a verdade nas suas regras de ilusão – proporcionam momentos de prazer extraordinários. Mas, quando o espectáculo se excede no aproveitamento da boa-vontade do espectador e baralha a realidade exterior às suas regras com a sua própria realidade, a sensação é bem diferente. O que acontece nestes casos é deprimente. E por muito elegante e pomposo que se apresente, não valoriza quem o produz.

A recente primeira edição da revista municipal de Caminha vai por aí. Um exercício notável de manipulação mágica de factos e acontecimentos para iludir um vazio estratégico evidente. Uma edição com uma excelente qualidade gráfica, sem dúvida. Com um forte sentido de comunicação global de pendor propagandístico extremo. Desde o tipo de imagens: é quase impossível abrir a revista em qualquer página sem depararmos com os rostos em poses de interessante fotogenia do nosso executivo municipal. Até aos títulos: cuidadosamente elaborados para nos convencer do quanto já mudou neste concelho graças ao saber, à competência e ao arrojo daqueles rostos que nos vão sorrindo ao longo da revista. Mas a realidade é bem diferente.

Esta câmara já percorreu mais de um terço do mandato que os caminhenses lhe confiaram em finais de 2001 na expectativa de uma mudança que melhorasse o futuro do concelho. E quais são as mudanças efectivas? As pessoas? Os protocolos? Os símbolos do concelho? O estilo de fazer política-espectáculo? A satisfação de pequenas vaidades? Um verdadeiro festival de superficialidades em que se mudam formas sem que se vislumbrem conteúdos substanciais. Um desfile de “doutores” na passarele da mediocridade, enquanto o concelho continua a mover-se, quando se move, ao sabor dos acasos conjunturais e dos caprichos de uns poucos.

Caminha continua sem uma estratégia de desenvolvimento. A verborreia das obras infraestruturantes, sem mais, é a resposta mágica de quem não sabe o que fazer, mas sabe o que dizer para iludir os problemas. Questões como a ponte sobre o rio Minho ou o parque industrial de Âncora, são opções óbvias para quem ? O concelho não deveria ter um enquadramento na identidade do seu desenvolvimento para estas situações ? Há quem pense que sim. E também há quem entenda que o fanatismo do cimento e alcatrão, dito infraestruturante, impõe em muitas cabeças uma única lógica de desenvolvimento, primária e uniformizadora, que inibe o concelho de Caminha de alimentar ambições diferentes, construídas a partir do que somos para aquilo que queremos ser. Assumidamente colectivas. Participadas por quantos possam e queiram. Com ousadia nos propósitos e humildade nos protagonismos.

Esta revista municipal é no meu entender, sob diversos aspectos, o corolário de um estilo de política-espectáculo em que este executivo camarário se tem mostrado intérprete entusiasmado. O critério de escolha de alguns temas e a conveniente omissão de outros ajustam o cenário. A realidade política do concelho é reconstruída, sem polémicas, harmonizada por uma ilusão de acções planeadas que, de facto, não o são. Resta-nos concordar com a presidente da câmara quando elogia a sua própria audácia. Resulta óbvia nesta revista. Já sobre a firmeza, de que fala também no seu editorial, temos, entre outras situações, demasiado presente a questão do IC1, que revela tudo menos isso. Pelo que não nos parece de todo. Mas isso fica para futura conversa.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Julho de 2003)


Saddam e Bush

Março 31, 2003

Entre a autenticidade das nossas emoções ou pensamentos e a necessidade de confrontarmos as nossas razões e sentimentos com os outros, percorremos muitas vezes caminhos que não pudemos escolher. Deixamos explodir emoções que gostariamos de ter controlado. Ou calamos e sofremos a asfixia de não ter dito. Contudo, infinitamente pior que estas inquietações é, sem dúvida, a recusa obstinada de alguns de nós em sentir ou pensar. Pior, pelo desprendimento egoista. Pior, pelo desprezo pela nossa condição humana. Pior, pela traição para com a dignidade de partilhar a vida com os outros.

O mundo em que vivemos é perpassado por um egoísmo bacoco, recheado com a superioridade moral dos que se gabam de não perder o seu precioso tempo com determinados assuntos. A política e outras actividades cívicas e culturais são, normalmente, o âmbito natural desta apreciação sobranceira. Com a autoridade que lhes advém das novas leis da selva os conformados explicam-nos com ar paternalista, aos que não nos adaptamos a esta sensatez dominante, que não deviamos desperdiçar as nossas vidas em coisas que não possam ser depositadas nos bancos. Que no mundo sempre existiram e sempre existirão injustiças. Que não vamos ser nós, peões insignificantes, que as vamos resolver. Que a nossa generosidade vai servir ambições de outros menos ingénuos. Enfim, uma panóplia de argumentos perspicazes e inteligentes que nos reduzem ao papel de idiotas inadaptados à realidade de um mundo com regras simples e práticas.

No que me toca, devia agradecer essas atenções e seguir o meu caminho porque não tenho alma de missionário. Não sinto necessidade de converter ninguém. No entanto, geralmente não resisto e esgrimo sentidamente os meus pontos de vista. Quando não o faço, tenho a estranha impressão que algo apodrece à minha volta.

Senti isso na véspera do dia em que começou esta abominável guerra que americanos e ingleses teimaram em fazer no Iraque. Estava a tomar o meu pingo-directo da manhã, no Central, quando a conversa de dois clientes em pontos opostos do balcão desembocou na guerra. Um deles manifestava revolta pela hipocrisia criminosa desta América do senhor George W. Bush. O outro replicou com a sabedoria de quem sabe o que é a democracia e a liberdade em versão compacta para uso popular, com a história da segunda guerra mundial, reescrita no balcão do café, para ilustrar a dívida eterna desta Europa para com uma América generosa e desinteressada. Afinal, essa América sempre esteve na primeira linha da luta contra as ditaduras, sustentava. O primeiro enumerou diversas intervenções americanas pouco edificantes em termos democráticos e de direitos humanos. O outro lembrou o curriculo hediondo do ditador iraquiano e rematou aconselhando o primeiro a deixar-se de esquerdismos primários. A conversa acabou minutos após ter começado, o dia era de trabalho para todos. Cada um foi para seu lado. Eu também. Paguei o pingo e a torrada. E passei a meia hora seguinte a digerir com dificuldade aquela apologia de uma América guerreira pela justiça e pela paz.

Pensei que o facto de ter entrado na segunda guerra mundial apenas depois de ter sido atacada pelos japoneses em Pearl Harbour talvez fosse um pormenor sem significado. E o aproveitamento da situação de guerra para obrigar os ingleses a pagar fortunas por armamento indispensável para enfrentar o expansionismo nazi, talvez não tenha tido qualquer relevância para entender o assunto. E aquela atitude, no final da guerra, de lançar as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki? Serão motivo de orgulho para os aliados? Ou só não são considerados crimes contra a humanidade porque os vencedores das guerras não cometem crimes, branqueiam as suas atrocidades com a força do seu poder vencedor? É óbvio que nada disto anula a importância da participação americana na vitória sobre o nazismo. Mas tal como a contribuição da URSS de Estaline não o transformou num democrata também a contribuição americana não nos torna reféns dos interesses e caprichos dos seus dirigentes. Tal como não podemos eternizar a imagem da Alemanha desumana desses tempos, ou considerar que a única atrocidade contra a humanidade nos últimos tempos foi o 11 de Setembro, desvalorizando as realidades presentes filtrando-as com clichés redutores para uso interesseiro e criminoso.

Guerras, como aquela a que estamos a assistir, para controlo geo-estratégico e domínio económico de regiões do planeta apresentadas em nome da liberdade e da democracia são uma afronta a todos e a cada um de nós. De uma aviltante e insuportável hipocrisia. Entre o Saddam e o Bush o diabo que escolha! Entre a guerra e a paz… não! Temos obrigação de consciência de responder da forma que cada um puder e fôr capaz, em nome da liberdade, da democracia e da dignidade humana. Nem que seja com o simples gesto simbólico de colocar um pano branco numa janela ou varanda da nossa casa, como tem sido sugerido pela ATTAC Portugal e por diversos partidos em Viana do Castelo. É imperativo que nenhum de nós se demita da sua condição humana numa ocasião como esta. Este pode ser o lado positivo da globalização, tenhamos nós vontade de o entender.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Março de 2003)


Goya e Picasso

Março 31, 2003

No início do século dezanove, Goya, um extraordinário pintor do seu tempo (e de todos os tempos) retratou um momento das invasões napoleónicas em terras de Espanha, “Os Fuzilamentos de Maio”. É um dos mais impressionantes gritos contra a desumanidade da lógica militar em acção. Os soldados franceses são apresentados pelo pintor como uma estrutura implacável na sua capacidade de matar. E o desespero lancinante dos que morrem não nos lembra heroísmos nem outros paliativos para mortes anunciadas. São a cruel expressão dos que morrem sem escolha. Dos que são condenados sem qualquer culpa. Condenados por um destino cruel de terem nascido na terra errada no tempo errado. Goya, no seu profundo humanismo, não se ficou pela sensibilidade do momento. Pintou com peito aberto um grito universal presente na cultura da humanidade dois séculos depois.

Outro genial pintor espanhol, Picasso, cento e trinta anos depois, perante os trágicos bombardeamentos nazis, durante a guerra civil espanhola, sobre a cidade basca de Guernica, destruindo-a completamente e matando crianças, mulheres, homens e animais de forma devastadora e cruel, pintou um painel para a Exposição Internacional de Paris de 1937, com idêntica atitude universal. Na tela de enormes dimensões não há identidade para os agressores. Há um imenso inferno de movimentos desesperados preenchido por um povo massacrado por um inimigo sem rosto. Criança de colo que a mãe procura proteger em vão, animais que gritam como pessoas, corpos mutilados… nem glória, nem herois! A guerra nua e crua na sua desumanidade. Em contraste tímido com todo este ambiente de violência apocalíptica, uma flor quase imperceptível desponta junto a uma mão decepada e uma espada partida. Um eloquente sinal de esperança, em tempo de desespero.

Estou convencido que é esta Europa, do Goya e do Picasso, da cultura da paz, que vale a pena aprofundar e legar aos nossos filhos. Não uma Europa alinhada numa espiral de violência em nome da supremacia do “Império do Bem” contra o “Eixo do Mal”, a fazer lembrar argumentos de outros saques vergonhosos de épocas passadas.

Os senhores da guerra mandam matar em nome de deus, da democracia, da liberdade ou até da paz. As guerras a que temos assistido nos últimos anos, e a que se anuncia agora, são apresentadas como libertadoras dos povos e demonstrando a infinita generosidade dos poderosos deste mundo para com os povos oprimidos. Deverão, por isso, tremer os tiranos? Os seus dias de terror estarão em contagem decrescente? Será que a humanidade pode contar com um protector desinteressado e implacavelmente justo? Haverá quem acredite neste altruismo dos senhores que dirigem os destinos dos Estados Unidos da América e que insistem em tratar o resto do mundo com uma arrogância absurda e perigosa? Não creio. E muito menos compreendo que alguém no seu perfeito juízo se queira tornar cúmplice desta escalada belicista. A não ser por interesses sem escrúpulos ou por uma ingénua mas criminosa necessidade de acompanhar os poderosos e apanhar as migalhas do poder.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Março de 2003)


Apologia do Menino Jesus

Dezembro 25, 2002

Todos precisamos de momentos de fantasia. Instantes de sonhos fingidos em que até os poderosos valorizem a generosidade sincera, a paz, a justiça, o respeito pelas diferenças… em que a dignidade humana se imponha como propósito universal. O calendário cristão propõe à humanidade um desses momentos no final de cada ano. Há algumas décadas atrás todo este fingimento amável era protagonizado, em terras de Portugal, pela tão frágil como poderosa imagem do Menino Jesus. Um menino símbolo da infinita capacidade humana de mudar o mundo. Um grito de alegria e esperança por tempos mais justos.

Como com estas emoções se temperam nobres causas, mas também grandes negócios, e como com negócios não se brinca, os poderosos deste mundo substituiram este menino cheio de sabedoria ingénua por um velhote gorducho e simpático, vindo das terras frias, vestido por uma das mais importantes multinacionais de refrigerantes do planeta, carregado de prendas para quem as possa comprar e a bondade própria de quem as quer vender. O S. Nicolau, que está na base deste Pai Natal do nosso tempo, viveu há dois mil e quatrocentos anos na Turquia e não se prestaria a este mercantilismo de sentimentos. Muito pelo contrário, a história que se conta a seu respeito é a de um homem extremamente tímido e generoso, incapaz de exibir as suas qualidades. Conclusão: Este não será sequer o verdadeiro Pai Natal. Mas adiante!

O nosso menino em pouco tempo viu-se substituido por este homem com ar de avô da humanidade e activista amestrado da globalização. Fomos nós que o relegamos para um secundaríssimo papel nestas festas. Deixamos de fazer presépios e passamos a sacrificar, em altares de consumo inebriante, árvores de Natal. Os sapatinhos postos à espera das lembranças do Menino passaram a peúgas para as prendas do Pai Natal. Dá para pensar que o Menino Jesus tem inimigos implacáveis. Talvez a culpa seja de um tal Alberto Caeiro por ter contado, a quem quis ler, que o menino tinha fugido do Céu por ser demasiado humano para suportar o fingimento divino e lhe confidenciou muito mal de Deus. Sobre a Virgem Maria contou que passava as tardes da eternidade a fazer meia. E do Espírito Santo, a tal pomba divina, disse que se empoleirava nas cadeiras e as sujava. Ora não são coisas que uma criança diga da família. Tanta franqueza, delatada pelo poeta maior do século vinte português, pode ter comprometido irremediavelmente a confiança dos poderosos homens de negócios neste menino. E nós, ingenuamente como quase sempre, alimentamos em comportamento de rebanho esta condenação ao esquecimento.

Mesmo tendo abandonado, por honestidade para com a minha consciência, as actividades e crenças católicas em que fui educado, há em mim uma memória de infância que me impele à solidariedade com este menino. Devo-lhe sonhos e doces mistérios que no tempo próprio me encantaram. Por isso é a ele que escrevo neste Natal de 2002, mais para um desabafo de amigos, não para lhe fazer pedidos ou meter cunhas.

Menino Jesus,

Escrevo-te de Caminha, em 24 de Dezembro de 2002, antes de mais, para te dizer que o mundo tem mudado alguma coisa, mas tão lentamente que só mesmo a tua paciência o compreenderá. A escravatura, tal como a entendiam no tempo dos teus pais terrenos, deixou de ser uma forma de organizar a sociedade moralmente defensável, pelo menos nas suas características mais violentas, mas nem por isso deixou de existir. O actual modelo de organização social, saído da ruptura com um tempo feudal, em que até tu, revolucionário assumido contra a escravatura, foste utilizado ao serviço das atrocidades mais cruéis, é nada mais nada menos do que uma espécie de selva financeira onde sobrevivem os mais fortes, que não raro quer dizer os capazes de canibalizar os outros. Desculpa. Não te vou maçar com estas generalidades que decerto já conhecerás.

A minha intenção, ao escrever-te esta carta, é falar sobre abomináveis manchas de crude e infelizes manchas de comportamento. Tudo começou em meados de Novembro quando um petroleiro chamado Prestige, que se deslocava do Norte da Europa para o Mediterrâneo, ao contornar o Cabo Finisterra, sofreu um enorme rombo no casco. Ao pedido de autorização do capitão grego, que comandava o navio, para entrar num porto espanhol onde trasfegasse a sua carga altamente poluente, as autoridades espanholas tomaram a opção, politicamente mais suave no imediato mas que envolvia maiores riscos ambientais, de o obrigar a passear pelo mar, até que se produziu um grande desastre ambiental de consequências incontroláveis. Depois, demoraram uma semana a começar a reagir, preferiram meter a cabeça na areia a reconhecer o que já era óbvio para todos. Perderam tempo precioso no combate à poluição. Não deram o apoio que se esperaria numa catástrofe desta natureza aos milhares de voluntários que generosamente se mobilizaram para a minimizar. De asneira em asneira, as autoridades espanholas e galegas criaram um mal-estar profundo, difícil de superar.

E por cá? Como reagimos nós a este atentado ao oceano que é de todos. Nem queiras saber, Menino Jesus, foram brilharetes atrás de brilharetes. O nosso ministro da defesa passou a especialista nestes assuntos. Multiplicou-se em declarações em que para além de nos sossegar sobre a defesa da nossa integridade nacional, com alguma razão apesar de tudo, mostrou as suas qualidades como porta voz dos técnicos, exemplarmente claro e preciso. Mas fez-nos lembrar aqueles professores que brilham nos meios académicos à custa dos trabalhos dos alunos, nem sempre com o nítido espaço do seu a seu dono.

Caminha andou numa roda viva. Com muita gente importante a pousar por estas bandas. Havia, e ainda há, o perigo de a costa portuguesa ser vitimada pela maré negra. A certa altura, em que a iminência da catástrofe atingir a costa norte de Portugal se colocou com maior probabilidade, foi um redemoinho de actividade mediática na vila: Televisões, rádios, jornais, vieram de todo o lado. O país ficou com a ideia de que havia planos, organização e capacidade para enfrentar o novo Adamastor Negro. Mas há quem não acredite… há sempre quem não acredite, pensas tu! Terás razão, mas neste caso há pequenos sinais no meio deste circo mediático que retiram credibilidade ao que é dito.

Quando parecia inevitável a vinda das manchas de crude para a costa portuguesa as autoridades utilizaram uma draga, que se deslocou da Figueira da Foz para Caminha, numa tentativa de combater a poluição longe da costa. Avariou mal começou o seu trabalho. O dr. Paulo Portas anunciou, com o vigor e a destreza de quem se revela em situações de crise, a contratação de um navio norueguês para combater a maré negra. O navio veio para Viana, foi preparado para a sua tarefa, rumou ao seu trabalho… e avariou no segundo dia. Não achas azar excessivo, Menino Jesus?

E aqui em Caminha? Passamos semanas a ouvir a presidente da câmara dizer que estava tudo a ser convenientemente preparado, mas depois ouvimos ambientalistas a dizer que tinham sido ignorados e acabamos brindados com mais uma magnífica folha informativa da câmara n’O Caminhense em que metade da página é preenchida com uma fotografia da dra. Júlia Paula sorridente a ser entrevistada pela RTP. Uma imagem pungente que nos sensibiliza para o duro combate que está a ser travado pelo nossos vizinhos galegos com os quais se diz querer aprofundar laços de fraternidade, mas pelos vistos só em ocasiões festivas.

Também houve sinais animadores. Os pescadores daqui mostraram uma serenidade e um sentimento fraternal para com os companheiros galegos dignos de registo. Os ambientalistas depressa esqueceram o desprezo a que tinham sido sujeitos e mostraram-se mobilizados e dispostos a trabalhar. O dr. Francisco Sampaio e os Bombeiros de Vila Praia de Âncora solidarizaram-se em palavras e actos: Foram homens desse corpo de bombeiros combater a poluição na Galiza.

Menino Jesus, do que vi, ouvi e li, fiquei com a impressão de que se o perigo se transformar no pior há poses que se vão desmoronar. Mas prefiro, sinceramente, que esse teste não se faça. E gostava de ver os nossos políticos saírem deste alívio egoísta e encararem os estragos na Galiza como se fossem nossos. É nas dificuldades que se manifesta o mais profundo da amizade. Não achas?

Recebe um beijo fraterno e passa um Bom Natal,

Carlos da Torre

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Dezembro de 2002)


Tentar? Repor a dignidade?

Outubro 31, 2002

A minha filha Carolina este Verão aprendeu a andar de bicicleta. Primeiro insegura e com rodinhas de apoio. Depois, pedia-nos, a mim e à mãe, que a segurassemos e ia circulando em completa dependência de um de nós. A certa altura parámos para pensar. Já todos tinhamos passado por aquilo. No fundamental as nossas experiências coincidiam: Primeiro, era importante olhar em frente e não para a roda. Segundo, pressionar um pedal com convicção e deixar cair o peso do corpo sobre ele. Terceiro, reagir ao desequilíbrio compensando, harmoniosamente, com a pressão exercida sobre o pedal oposto. A confiança com que atacamos o primeiro pedal e contra-atacamos o segundo e a calma com que olhamos para onde queremos ir, são determinantes para o sucesso da pedalada. Depois, resolvidos os problemas do equilíbrio, podemos deslocar-nos com prazer, sempre cuidando não atropelar ninguém. Exibicionismos ficam para o circo ou para espaços apropriados a actividades radicais. Destes conselhos retirou a Carolina o bastante para rapidamente se autonomizar pedalando cuidadosamente sem ajudas humilhantes. Pena não ser tudo assim tão simples na vida. Se observarmos, por exemplo, alguma vida política veremos como está eivada de outras lógicas de dependência, intriga, ignorância, vaidade, cobardia, deslealdade, vingança, enfim, coisas de que um cristão se poderá redimir em espaço de confissão e repetir em espaço político, num infinito ciclo de pequenas emoções para gente pequena.

No último “Caminhense” sob o título “Tentar repor a dignidade do concelho de Caminha” a comissão política concelhia do PSD subscreve uma estranhíssima prosa que, de algum modo, se enquadra na indignidade em que alguns teimam colocar a actividade política. Se taparmos o texto e tentarmos pelo título adivinhar o conteúdo estaremos condenados a um insucesso absoluto. Não trata aquele do conflito que opõe a Câmara à maioria dos outros intervenientes no processo de consulta pública sobre o estudo de impacto ambiental do IC 1, não se refere ao terrorismo institucional contra a ETAP, não vem melhorar esclarecimentos sobre os critérios de contratação de pessoal da Câmara, não vem, sequer, explicar as gafes protocolares de um vereador que, de tal forma nos confunde que já não sabemos muito bem se ele julga viver em monarquia ou república, enfim, nada do que, pelo menos a mim, parecia dar propósito a um título tão pesado se revela na ligeireza do texto. A concelhia do PSD encheu-se de pequenos brios e, enquanto o concelho se agita numa tempestade de conflitos provocados pela inépcia dos seus eleitos, vai à sua arca de valores e retira a honra, o respeito e a dignidade e vem à luta munida de um alfinete.

Perante a inoportunidade e a ligeireza da argumentação fiquei num dilema: Ignorar a picada ou reagir? Acabei por tomar a segunda opção, por três razões: primeiro, por estar convencido da utilidade do debate sobre as opções culturais dos poderes, quaisquer que sejam esses poderes, e neste caso concreto quanto mais avança a polémica mais se evidencia a dimensão medíocre dessas escolhas; segundo, porque o PSD como partido no poder, no concelho de Caminha, tem responsabilidades acrescidas que não se compadecem com cegueiras provocadas pelo novo-riquismo cultural e pelo deslumbramento saloio, pelo que deve ser confrontado com a sua irracionalidade, até porque, creio sinceramente, haver muita gente no PSD que não se revê nestas atitudes; terceiro, seria ingrato da minha parte não responder a uma comissão política que se deu à canseira de ler com tão esforçada atenção as minhas opiniões e, embora os resultados dessa leitura denotem algumas dificuldades de interpretação, não deixo de a registar agradecido.

Neste ponto, e antes de entrar na listagem de temas que a comissão política entendeu como questão que dramaticamente nos divide, gostaria de referir que a crítica de sobranceria que tanto a presidente da câmara como agora a comissão política me fizeram tocou-me particularmente. Puseram-me a pensar sobre o assunto. Será que me estou a pôr em bicos de pés? Quem sou eu para questionar o desempenho das digníssimas pessoas que ocupam o poder? Ou “dos homens que honram Portugal” como eles dizem? Vão-me desculpar, mas encontrei um acréscimo de legitimidade nas reacções dos senhores do PSD. Na sua atitude de rei surpreendido em nudez ignorante. É óbvio, para quem queira ver, que como na história do “rei vai nu” há aqui uma corte de conveniências cegas e de cegueiras convenientes.

Analisemos agora as partes para melhor nos situarmos em relação ao que está em causa:

1. Maestro António Victorino d’Almeida

Crescemos todos, os da minha idade e os mais velhos, com o privilégio de acompanhar pela televisão os magníficos programa de divulgação musical do maestro. A imagem de um homem sábio e excêntrico de bengala na mão, recordo-a dos mais diversos sítios. Lembro-me da emoção da ante-estreia do filme “A culpa”. Recordo o entusiasmo do Festival de Vilar de Mouros de oitenta e dois. Lá estava o maestro Victorino d’Almeida de alma e coração. No primeiro festival, onze anos antes, eu era ainda muito novo. Associo-o a muitas das manifestações culturais marcantes da vida portuguesa. Sem dúvida. O maestro, homem político, generoso, franco, polémico, surpreendente, também se cruza na minha memória de vida. Na sua candidatura ao parlamento europeu senti orgulho em participar na campanha, em colar cartazes, em anunciar sessões de esclarecimento; foram bons momentos de entusiasmo político. Nas últimas autárquicas o maestro António Victorino d’Almeida chegou a ser a primeira opção do Bloco de Esquerda para a Assembleia Municipal de Caminha, tanto quanto julgo saber, só não o foi por indisponibilidade de tempo. As críticas que fazia à Câmara PS no âmbito da política cultural orientavam-se de forma mais incisiva sobre dois pontos: o desprezo da Câmara pela situação em que se encontrava o Teatro Valadares e a sua revolta pelo desvirtuar do projecto do Festival de Vilar de Mouros. Não podíamos estar mais de acordo. Para além destas questões, que nos dizem respeito a todos, havia entre o maestro António Victorino d’Almeida e o poder do Partido Socialista um conflito pessoal, que desconheço quando e como começou, mas que era evidente e que resultava num desaproveitamento de um caminhense de méritos firmados.

Este novo pelouro da cultura não tinha nada que o impedisse de retomar a normalidade no relacionamento com o maestro e tomou essa iniciativa. Transformou a situação numa galinha dos ovos de ouro. As segundas-feiras do maestro e seus convidados, a maior parte delas em espaços onde não cabiam mais de cem pessoas, foram interessantes, disse-o antes e repito-o agora. Por que insisto, então, em evidenciar que a maior parte dos locais onde foram feitos estes espectáculos não comportavam grandes públicos? Porque me pareceu uma opção que deixou de fora muitas pessoas interessadas nos concertos ou que a eles assistiram em condições de grande incomodidade. Para esta situação não houve a mínima sensibilidade da Câmara Municipal que apesar de ter sinais claros desde os primeiros concertos de que seria assim, preferiu o sucesso das casas cheias. Mas há mais. Nunca vi, fora de campanhas eleitorais em lado nenhum, um protagonismo tão grande, e às vezes tão ridículo, de políticos em acontecimentos culturais. Na Igreja da Misericórdia chegamos a esperar quarenta e cinco minutos pelo início do concerto “por uma boa causa” explicou-nos a dra. Júlia Paula, o sr. governador civil de Viana do Castelo estava atrasado. No espectáculo oferecido aos nossos vizinhos galegos o público, os músicos e as autoridades galegas esperaram tempo idêntico, aí a “boa causa” foi a nossa presidente de câmara. Não estive lá, contaram-me. Houve momentos em que ficou a estranha sensação de que os concertos foram organizados para consagração de um trio municipal e que a presença do público correspondia à necessidade de testemunhas, não mais do que isso, tal era o à-vontade e o despudor.

A cumplicidade do maestro António Victorino d’Almeida neste tipo de situações incomodou-me de forma profunda e sentida. Se consigo entender que o homem da cultura prefira ser utilizado a ser inutilizado, já não consigo perceber o alheamento de tudo o mais. A aparente ausência de limites profissionais, deixa-me um amargo de alma, constrangedor. Gostava de estar enganado. Sinceramente. Mas a vida prega-nos partidas destas.

2. Rancho Folclórico Verde Gaio do Rio de Janeiro

A minha crítica ao dito rancho folclórico Verde Gaio é objectiva e simples. Não tem rigorosamente nada a ver com o ser bonito ou feio. Não depende do meu gosto em contraponto ao gosto de outras pessoas. Nem fica desvalorizada por muita gente se ter divertido com o espectáculo. Tentemos ser claros. Os ranchos folclóricos são uma criação dos anos vinte e trinta em Portugal, corresponderam a uma tendência não só portuguesa mas europeia para valorizar trajos, adornos, danças, músicas, comportamentos, enraízados na cultura popular de locais bem definidos e transformá-los numa vivência o mais autêntica possível e também, quase sempre, num produto turístico. Nem tudo é pacífico na definição do que é ou pode ser um rancho folclórico. Há posições mais “puristas” e outras mais “abertas”. Mas há também limites de bom senso para além dos quais se estará a propôr gato por lebre. Nem importa discutir as boas intenções das pessoas, porque isso não autoriza algo que não cabe na categoria de rancho folclórico a designar-se assim. É um ultraje aos ranchos folclóricos.

Há décadas, que se reflecte sobre esta actividade, não sou propriamente um entendido nos assuntos do folclore, mas todos temos consciência do investimento humano que a nossa região fez na actividade dos ranchos folclóricos. Durante quase um século identificaram-se e desenvolveram-se aspectos fundamentais caracterizadores de gentes e terras, elementos cuidadosamente encontrados, uns em raízes culturais profundas, outros em evoluções fundamentadas, em resultado do trabalho sério e esforçado de muita gente. Agora, em dois mil e dois, apresentar-se na praça principal de Caminha o Rancho Folclórico Verde Gaio, com trajos à minhota, e já aí com algumas invenções ao nível das cores de alguns fatos de lavradeira, com um reportório de danças e cantares de norte a sul de Portugal com ritmos e coreografias em estilo livre e despreocupado, onde um dos momentos hilariantes foi, por exemplo, os tais minhotos e lavradeiras em dança de Pauliteiros de Miranda com ritmo quase tropical, não pode ser encarado com naturalidade. E foi isto apresentado pelo Pelouro da Cultura da Câmara de Caminha, em pleno pico do verão, com o Terreiro cheio de gente de cá e de fora, um contributo valiosíssimo para a nossa cultura? Acho que não. Mesmo que aceitemos com tolerância a inverdade do espectáculo e as boas intenções das pessoas que vieram do Brasil, não podemos ignorar que estamos na região do país que mais projectou a actividade dos ranchos folclóricos. No pico da actividade turística, Caminha oferece este espectáculo aos visitantes, apresentado como se de folclore se tratasse, agravado com o entusiasmo cúmplice dos responsáveis da câmara que, com o brilhantismo a que nos vão habituando, trocam galhardetes em palco sobre a excelência da iniciativa. O que os impulsionou? Falta de sentido de oportunidade? Ignorância? Embriaguês pelo show? Não sei. Mas não posso deixar de reprovar.

3. Tony Carreira e Marco Paulo

“…músicos populares tão ao agrado dos nossos concidadãos…” “…que em férias gostam de ver de perto aqueles actores que através da música lhes lembram Portugal…” – são palavras da comissão política do PSD, e pela forma como explicam a importância destes pontos altos da animação fica claro um certo conceito de Portugal, uma certa visão cultural dos emigrantes. Faltará convicção aos senhores do PSD para afirmarem com clareza a criatividade inquestionável e o refinamento musical destas opções? Ou servem só porque lembram Portugal aos nossos concidadãos que nos visitam? O tal Portugal que também lhes é dado lá fora de modo que eles nunca se encontrem com o outro Portugal dos cultos, dos que ouvem o maestro António Victorino d’Almeida? É que a tal pretensão de possuir o “monopólio do bom gosto” de que me acusam é a teia em que estas explicações se enredam. Quem alimenta um estereótipo sobre o emigrante com padrões culturais tão óbvios é porque ainda não percebeu as mudanças emergentes nas comunidades portuguesas. Estive apenas duas vezes, por pouquíssimo tempo, junto de comunidades emigrantes. Uma no início dos anos oitenta, em França, outra em oitenta e nove, na Holanda. Em ambos os casos fiquei com a ideia de uma apetência por novidades, por qualidade, por um Portugal criativo. Trabalho notável de algumas associações culturais de emigrantes. Na Holanda acompanhei os concertos de Carlos do Carmo, José Mário Branco e António Pinho Vargas, em três cidades. Em todos esses concertos senti na comunidade portuguesa orgulho e prazer por estar a viver Portugal. Agora, se me disserem que há um circuito de produtos musicais de qualidade artística média, má, ou horrorosa mesmo (ou vamos achar que o Zé Cabra também é um fenómeno de gosto?), onde encaixa o fenómeno vulgarmente designado por “pimba”, que apoiado em estruturas comerciais fortes encontra facilidade em promover-se junto das comunidades portuguesas emigrantes, eu reconheço que existe. Mas não me parece boa política cultural reforçá-la cá. Ou será que os pelouros da cultura das câmaras devem seguir o “bom exemplo” das televisões? Render-se às audiências por padrões medíocres? Penso que não. A isto chamei de populismo redutor. O contrário disto não é necessáriamente elitismo, nem sequer “educação de massas”, como chegaram a insinuar.

4. Comparações

Estranham os senhores da comissão política do PSD, a minha sugestão de comparar a animação cultural de Caminha com a de outros concelhos menos vocacionados para a actividade turística. Estranham, mas aceitam a conclusão de que Caminha sairia menos bem dessa análise. Aí sacam da explicação número um do manual de apedrejamento político. Culpados são os outros, os que tiveram responsabilidades antes de nós. Estamos entendidos! Estiquem essa corda da irresponsabilidade até onde puderem, força! Por aí, chegaremos ao ponto de culpar D. João IV pelo recente aumento de impostos!

5. Notas finais

Convido a comissão política do PSD a TENTAR perceber que a crítica feita com a cara à mostra é um direito e um dever cívico e a REPOR A DIGNIDADE da participação democrática, reconhecendo que o futuro do concelho ganhará com debates sérios e empenhados na procura de melhores práticas políticas. Nestes propósitos contem com o Bloco de Esquerda.

Resta-me, desejar-lhe que se esforce um pouco mais nas suas reflexões porque a política da pedra na mão esgotou-se. Prometeram mudança, façam-na. Mas para melhor!

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Outubro de 2002)


“A fúria da madrasta da Branca de Neve”

Setembro 30, 2002

Sabemos todos que o ano dois mil e dois depois de Cristo se iniciou em Caminha com novos protagonistas à frente dos destinos políticos do município. A dra. Júlia Paula apoiada pelo Partido Social Democrata convenceu a maioria dos eleitores deste concelho de que a mudança prometida lhes convinha. Descontadas as bolas, as esferográficas, as vedetas políticas nacionais e outros brindes publicitários, sobrou, cremos, o bastante contra os outros ou a seu favor para explicar a vitória democrática clara e responsabilizadora que obteve. Sobre isto não temos dúvidas. Há nove meses que a campanha eleitoral acabou e a hipersensibilidade a quaisquer críticas, conotando-as para as desvalorizar, não faz obra. São, agora, os resultados do trabalho do executivo municipal que o concelho avalia e as suas opções podem e devem ser objecto de opinião. Será legítimo pretender que seja de outro modo? Penso que não!

Tudo isto vem a propósito do direito de resposta utilizado pela presidente da câmara municipal de Caminha, que na última edição deste jornal, se insurge contra um pequeno texto de opinião publicado em número anterior e em que, de forma respeitadora mas frontal, reajo à propaganda desproporcionada exibida no quarto boletim informativo da autarquia em pseudo-balanço do seu próprio trabalho no âmbito da cultura. Escrevi esse texto com a convicção de que a diferença de opiniões é um dos fundamentos da democracia. Esperava tudo menos uma resposta rancorosa e de índole politiqueira. Tal resposta parece-me do pior que tenho lido e ouvido nos últimos tempos. Na colectânea de textos “Reino da Estupidez” Jorge Sena escolheu uma quadra de origem popular para iniciar um dos seus escritos que define exactamente o que penso sobre tudo isto: “Pilriteiro dás pilritos / Porque não dás coisa boa? / Cada um dá o que tem / Conforme sua pessoa!”.

A reacção da sra. presidente da câmara em tudo semelhante à fúria da madrasta da Branca de Neve quando o espelho lhe disse a desagradável verdade: que afinal não era ela a mais bela, toldou-lhe a lucidez. Impediu-a de defender de forma inteligente a sua política cultural. Manifestou e revelou emoções de quem assimila mal as práticas da democracia para além da legitimação do poder. Senão vejamos:

Primeiro – O autor da crítica nunca é tratado pelo nome no texto da sra. presidente. O autor da crítica é definido por “um senhor que a gente do concelho rejeitou enquanto candidato à câmara” que “não conhece os caminhenses e que os caminhenses também não o quiseram conhecer”, “alguém que se coloca à margem da comunidade”. Enfim, um proscrito, no entender da dra. Júlia Paula. Por falta de melhor explicação, teremos que concluir que o conceito de democracia desta presidente de câmara é muito peculiar. Com algumas semelhanças, perdoem-me o exagero, com o do sr. Adolfo do século passado que também chegou a ganhar eleições. Desse modo, quem perde eleições deve calar-se e deixar governar em sossego, bem ou mal, quem as ganhe. Não acredito que esta opinião seja partilhada mesmo pelos munícipes que votaram na sua candidatura. Porventura todos teremos muito caminho a fazer para valorizar a democracia, porém há formas de convivência democrática que dificilmente serão postas em causa pela maioria dos cidadãos. Estou convencido de que a senhora presidente, com esta atitude, estará a ficar mais isolada que o autor da crítica.

Segundo – Na sua precipitação nervosa em distinguir “nós” dos “outros” a sra. presidente identifica insultos e auto-elogios inexistentes. Os visados pela crítica que a sra. presidente num entendimento abusivo endossa a todos os munícipes do concelho e os outros, que são o autor da crítica e os que pensam como ele, que para melhor distinguir os contrastes pinta de “educadores de massas” de inspiração estalinista ou fascista. Pasme-se! Coisas que ficam entre o dito e o insinuado. Explicáveis, talvez, por sintomas de paranoia galopante. Porém, como não vivo nessa estreiteza da realidade partida em dois, fui público interessado, na medida da minha disponibilidade, nas actividades culturais que a câmara organizou; obviamente excluí aquelas que antecipadamente me pareciam claramente incompatíveis com o meu bem-estar. Como eu, suponho, estariam a maior parte dos públicos das iniciativas que foram decorrendo. Não estavamos lá para prestar vassalagem a ninguém. Não fomos a comícios de apoio à presidente da câmara. Fomos simplesmente usufruir de actividades que são pagas com os nossos impostos e sobre as quais temos o legítimo direito de avaliar cada uma e o seu conjunto. Ou estou enganado?

Terceiro e último – Sobre a classificação das críticas em construtivas ou não, é possível que a senhora presidente da câmara esteja a ver o assunto de pernas para o ar. Quem é criticado adquire o poder de utilização construtiva da crítica feita. No mínimo poderá servir para melhor esclarecer o ponto de vista do criticado através da qualidade da resposta. Mesmo a crítica mais truculenta pode ser construtiva se os visados tiverem espírito democrático. Por outro lado, todos conhecemos aquela imagem do velho ancião que aponta qualquer coisa no céu a um jovem patarata que insiste em olhar para o dedo que aponta e não para o local apontado.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Setembro de 2002)


Verão ao Rubro em Caminha

Agosto 31, 2002

Sou um medíocre jogador de xadrez. Daqueles que só sabem mexer as peças, mas que nunca estudaram as intrincadas estratégias do jogo. Não me esforço em raciocínios que vão muito além da segunda ou terceira hipótese de jogada do adversário. Em miúdo, quando jogava com um amigo mais aplicado, acontecia, por vezes, surpreendê-lo com jogadas tão más que ele perdia tempo infinito a tentar perceber os meus propósitos. O disparate era tão óbvio que nem lhe parecia verdade. Na sua cabeça de jogador a sério punha-se a hipótese de estar a induzi-lo, sob aparência imbecil, para qualquer coisa inteligente. Perda de tempo a sua. Eu simplesmente estava distraído a pensar em qualquer outra coisa e, quanto à estratégia de jogo, era só inconsistência.

Esta minha vergonhosa performance como jogador de xadrez veio-me à memória quando estava a ler o quarto boletim informativo da Câmara Municipal de Caminha e não resisti a referi-la neste comentário. Porque aquilo que senti se assemelhará ao que o meu amigo, adversário no jogo, sentia nessas alturas. Quando leio “Animação de qualidade mostra potencialidades locais e não só – Verão ao Rubro em Caminha” em título, e depois continuo a ser obsequiado com o balanço da Câmara ao seu próprio programa de animação, nessa página e nas duas seguintes, dou comigo a tentar perceber o que lhes passará pela cabeça. Hesito. O surrealismo é tanto que parece alucinação de gente que descolou da realidade e entrou em dinâmica de fantasia e absurdo. Talvez não. Ingenuidade a minha. Talvez a lógica deste discurso se explique num desprezo assumido pela inteligência dos munícipes, aos quais se pensa poder impingir a propaganda que se quiser. Não. Estou a ser mauzinho. Posso acreditar nas pessoas. Quem avalia o seu desempenho daquele modo, embora isso seja espantoso para mim, pode estar dotado de valores muito diferentes dos meus e de todas as pessoas que eu conheço e portanto lidar com estas coisas sob um ponto de vista que eu não consigo perceber. Desisto. Não consigo entender o que lhes vai na alma. Mas nem por isso me impeço de deixar um recado à navegação.

O programa de animação cultural deste verão em Caminha é, passo a imagem, uma embarcação em deriva de populismo redutor. A disponibilidade, tantas vezes manifestada, do maestro António Victorino d’ Almeida, e agora utilizada pelo pelouro da cultura, e algumas poucas outras actividades de qualidade dão uma aparência de ecletismo ponderado a uma programação globalmente mediocre, com um protagonismo dos responsáveis da Câmara excessivo, muitas vezes despropositado e até ridículo. Em contraponto à qualidade das segundas-feiras do maestro e seus convidados, interessantes e pedagógicas, a animação teve os seus picos no Marco Paulo e Tony Carreira, esses sim em tempos e espaços de grande público. Mas o pico dos picos, o mais difícil de escalar, foi aquela memorável noite do Terreiro em que o dito Rancho Folclórico Verde Gaio do Rio de Janeiro nos mimou com uma delirante mescla de folclore com espectáculo para casino em estilo de cultura superior. Aquele estilo que não precisa de prestar atenção a muitas décadas de pesquisa etnográfica em Portugal, por homens da cultura como Leite de Vasconcelos, Cláudio Bastos, Abel Viana, Pedro Homem de Melo ou Amadeu Costa. Anos e anos de pesquisa e caracterização da identidade dos ranchos folclóricos. Comportamentos, danças, trajos e adornos que resultaram da identificação de raízes culturais ou em evoluções fundamentadas. À custa do trabalho sério de muita gente. Não valem nada quando o show precisa dos condimentos da espectacularidade fácil. Por isso os fatos de lavradeira podem ser livremente alterados e um rancho minhoto pode dançar qualquer coisa, de qualquer ponto do país, o ritmo também pode ser tropicalizado, porque não? Tudo isto aconteceu, suponho que integrado no prestimoso interesse pelo folclore que esta Câmara parece definir como fundamental para a sua actividade cultural. A certa altura do espectáculo subiram ao palco, deslumbradissimos, o sr. vereador do pelouro da cultura e a sra. presidente da câmara. O momento foi escolhido para elogiar de forma empolgada o extraordinário trabalho do pelouro da cultura. É caso para se dizer aquele lugar comum: “com amigos assim, o nosso folclore não precisa de inimigos”.

Vistas as coisas assim, do lado de fora, e desculpem-me os responsáveis da câmara se não estou a ser muito sensivel ao seu esforço, se quiserem dar uma olhadela na programação de outros municípios, com potencial turístico muito menos assumido, e usarem uma balança normal na avaliação de desempenhos, irão concerteza ao rubro, mas não será de entusiasmo.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Agosto de 2002)