Arquivo para Junho, 2009

Em democracia não há votos de segunda!

Junho 13, 2009

As pessoas comuns, como eu e talvez como quem me está a ler neste momento, têm o privilégio de fruir diariamente de um exército de mediadores, entre elas e a realidade. Estes mediadores interpretam pormenor a pormenor os mais diferentes factos, de modo a que compreendamos o visível e invisível do jeito perspicaz e inteligente que só essas mentes treinadas nos entrefolhos do poder são capazes. São políticos, comentadores, analistas, na televisão, na rádio, nos jornais, produtores de opinião qualificados… enfim, uma espécie de serviço nacional de interpretação que vive feliz e confortável a explicar-nos o mundo e os nossos próprios comportamentos e vontades.

Que seria de nós sem a sua orientação interpretativa? Que seria de nós sem a sua bondade de intenções? Só para ilustrar o resultado da ausência de um destes generosos mediadores, peço-lhes que imaginem o país sem a ajuda diária de um deles. Qualquer um! Conseguiram? Não é fácil, pois não? A dificuldade começa logo na escolha, imagino. Eu não dispenso a minha dose periódica de quase todos. Desde o maratonista Pacheco Pereira, passando pelo velocista Pulido Valente, até, numa segunda linha, ao promovido a primeiro ministro José Sócrates. Todos nos ajudam a ver mais… e mais… e mais! E nós não ajudamos muito. Passamos a vida a pensar que é possível mudar o mundo através da vontade democrática das pessoas. Mudar mesmo. Construir uma sociedade onde a justiça social seja a base: o ponto de partida e de chegada do percurso de vida de cada um e de todos. Eles então orientam os nossos olhitos e mostram que o máximo a que podemos aspirar é reclamar umas coisitas aqui e outras acolá. Mudar uns detalhes para que o fundamental permaneça. Não vão os cidadãos lembrar-se com (im)pertinência daquela quadra do poeta António Aleixo que diz: “Vós, que lá do vosso império / prometeis um mundo novo, / calai-vos, que pode o povo / querer o mundo novo a sério.”

Por exemplo, nestas eleições europeias, os mediadores de serviço realçam que os votos no PSD e no PS são votos para levar a sério, são votos de primeira, de eleitores que escolhem governos. Enquanto os votos na CDU e no Bloco são votos de segunda, não valem pela mudança que indicam, são apenas a expressão das reclamações do momento. Baseiam-se estes senhores na sua vontade de imutabilidade da sociedade como princípio inquestionável. É o lema do inicio da industria automóvel aplicado à democracia: todos podemos escolher a cor que queremos, desde que a cor escolhida seja uma só e seja aquela que já escolheram para nós.

Esta visão instrumental da democracia, ao serviço da manutenção da injustiça social em nome da sagrada estabilidade, não serve o interesse da maioria das pessoas, aqui em Portugal, na Europa e no Mundo. A luta pelo aprofundamento da participação democrática é o caminho certo para a esquerda. E os eleitores portugueses que votaram, devem ser todos respeitados na vontade que manifestaram. São todos votos de primeira, porque em democracia não há votos de segunda.