“… Continuamente vemos novidades, / Diferentes em tudo da esperança; / Do mal ficam as mágoas na lembrança, / E do bem, e do bem, (se algum houve…) as saudades. // Mas se todo o mundo é composto de mudança, / Troquemos-lhe as voltas qu’inda o dia é uma criança.” – Assim cantou José Mário Branco, pela primeira vez, há quase quarenta anos, o inspirado poema que Luís Vaz de Camões tinha escrito quatrocentos anos antes.
O tema mudança é central em toda a actividade humana e também, obviamente, na luta política. O que não é comum, é alguém candidatar-se a um terceiro mandato consecutivo com um slogan em torno da mudança. Nas escolhas políticas, quem ambiciona diferente apela à mudança e promove-a. Quem se sente confortável com a situação que vive, procura preservá-la. Isto pensava eu. E talvez também pense o leitor que me acompanha. Mas, naturalmente, os homens do marketing da candidata do PSD à Câmara de Caminha têm uma perspectiva diferente. Como nos compete a nós, receptores dessa comunicação, descodificar o sentido da mensagem “a mudança tem um nome – (assinatura de) Júlia Paula Costa”, coloquei a mim próprio o desafio de formular algumas hipóteses de leitura.
A primeira, confesso que me envergonho de a ter pensado, mas não tenho o direito de a esconder: Todos sabemos que há muitas espécies que marcam o território de uma forma simples e que alguém menos atento pode confundir com a satisfação de outras necessidades. Ou seja, a candidata ainda no poder, salpica o concelho com a palavra “mudança” para tentar evitar que outros façam isso. É uma ideia própria de quem luta pela sobrevivência.
A segunda hipótese, talvez a considerem mais óbvia: A actual presidente da câmara, quando se candidatou pela primeira vez, em 2001, enalteceu a consistência da equipa, com que se apresentava, como um valor de confiança. Disse-o de forma entusiástica nos debates em que participou. Nomeava para o efeito a experiência e a idoneidade de duas pessoas que já não vemos ao seu lado. Por isso, vai mudando a sua equipa para que tudo fique confortável ao seu estilo de exercício de poder. É uma ideia própria de quem quer rodear-se de conformismo e obediência.
A terceira hipótese, talvez seja a mais simpática: Após dois mandatos marcados pela desorientação estratégica, mas com máquinas e operários em movimento no centro das duas vilas do concelho nos meses que precedem as eleições, a candidata quer mudar! Continua sem saber para quê, nem como, nem porquê. Mas tem uma vontade frenética de mudar! É uma ideia própria de quem está sob alguma instabilidade emocional.
A quarta hipótese é a de que a dra. Júlia Paula mudou, pelo efeito do poder. Não tem paciência para os detalhes democráticos. Não gosta de perguntas desalinhadas. Perturba-se com opiniões diferentes. Os homens do marketing perceberam isso e identificaram no seu nome o nome da mudança. Esta parece-me uma leitura honesta e simples. O que possa ter mudado no concelho é menos relevante do que o que parece ter mudado na principal protagonista deste “filme”. Os munícipes são uma espécie de figurantes. O enredo está estruturado para destacar a figura principal. Pode ser uma ideia interessante para a própria, não para o concelho de Caminha.
Claro que muitas outras são possíveis e todas estas interpretações são absolutamente especulativas. Por isso, vamos todos aguardar pelas leituras oficiais do PSD.