Na Serra d’Arga ou em Paris

Maio 31, 2004

A identidade das pequenas comunidades locais ou regionais, das nações ou de comunidades como a europeia, vai-se estruturando em volta de sentimentos e ideias de pertença e de exclusão. Coisas simples que se reflectem em atitudes quotidianas de proximidade fraterna, por via da partilha de responsabilidades. Não se trata de anular a cultura de cada um. Muito pelo contrário, é pela sua afirmação, num encontro de diferenças respeitadas e de propósitos de bem-estar comum valorizados que se consolida uma verdadeira identidade colectiva.

Mas, e um cidadão de uma aldeia do interior do concelho de Caminha, de Paredes de Coura ou de Melgaço, entregue à sua realidade de abandono secular pelos políticos do país, sentirá vontade de participar nas eleições para o parlamento europeu do próximo dia 13 de Junho? Sentirá responsabilidade pelo futuro da Europa? Olhará para si próprio como cidadão europeu? Num primeiro impulso, talvez não. Solicitam-no para uma escolha que não lhe parece resolver nada do que o aflige. No entanto, se olhar com vontade de ver, encontrará razões muito fortes para se fazer ouvir neste escrutínio.

Os partidos grandes mais não tem feito do que distanciar-nos da Europa dos cidadãos para nos venderem a Europa feita à sua medida. A Europa dos fundos milagrosos. A Europa das negociatas. A Europa dos que mandam por conta da subserviência humilhante dos que obedecem.

Chegaram, nos últimos tempos, ao ponto de se mostrarem dispostos a subscrever um Tratado Constitucional Europeu onde a democracia política entra definitivamente no reino do faz-de-conta. Esta proposta de constituição europeia que pretende perpetuar uma união de governos com um directório dos países mais ricos, é o caminho inverso ao de uma Europa Democrática, fundada na vontade expressa dos seus cidadãos. Os resultados das próximas eleições europeias podem, de alguma forma, apontar uma vontade de cidadania contra estas imposições. Para isso, é necessário que o direito de voto seja consciente e massivamente exercido.

Para além desta questão, elementar para a construção europeia, colocam-se outras, não menos importantes, como a renúncia à corrida aos armamentos para concentrar o investimento público europeu na diminuição das desigualdades, no combate à fome e à pobreza, na criação de emprego, na saúde, na educação e na criação cultural, no ambiente, etc, etc. Por tudo isto, votar nas eleições de 13 de Junho é uma oportunidade que não deve ser desprezada sob pretexto algum. É tempo de manifestarmos opções claras por uma Europa da solidariedade, da democracia e contra a guerra e o terrorismo – seja ele de grupos desesperados ou de estados com ambições imperiais. E tudo isto importa aos cidadãos europeus na Serra d’Arga como em Paris.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Maio de 2004)

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