Quando se fala de cultura castreja, está a falar-se de povos que viveram no noroeste da península ibérica até, provavelmente, aos limites do rio Mondego, durante um período que terá começado pelos finais da Idade do Bronze até ao tempo, já histórico, da romanização. E, apesar de não se conhecer, ao que parece, unidade política e social no conjunto dos povos que nos deixaram esses vestígios, há nítidas características comuns: na forma de construir os povoados protegidos no alto dos montes – os castros, também designados por cristelos, cividades ou citânias – na simplicidade dos utensílios, nas suas crenças sobre a vida além da morte ou na posse colectiva da terra. O concelho de Caminha possui vestígios dessa cultura em diversos pontos do seu território – em Seixas, em Vilar de Mouros, nas Argas, em Gondar, em Âncora, etc. O castro do Coto da Pena é um dos mais importantes.
A recente polémica a propósito de mais um loteamento junto a este castro é, para além das quase inevitáveis simplificações politiqueiras, um excelente momento para tentarmos compreender até que ponto prezamos ou não o património cultural que possuímos.
Em situações tão sensíveis, como a de intervir com obras junto a uma estação arqueológica, todos os cuidados são poucos. Não basta aliviar a consciência e afastar as más línguas com uma sustentável interpretação da lei. Não basta encontrar em práticas passadas a jurisprudência legitimadora dos excessos de risco no presente. Porque, ou fica claro para todos que o interesse público e a defesa do património estão absolutamente assegurados pelos eleitos, ou não. É muito mau que haja circunstâncias em que interesses privados, mesmo quando legítimos e legais, se transformam numa obsessão perturbadora do normal funcionamento institucional.
A câmara de Caminha enredou-se, em relação a este assunto, numa trama de comportamentos e reacções que só não nos surpreende por termos chegado àquele estado infeliz de nada nos surpreender já. É a própria câmara que nos informa com toda a naturalidade, no seu último boletim municipal, que precisou de receber quatro vezes a solicitação do IPPAR para mandar suspender as obras do referido loteamento. O Instituto pediu para as obras pararem pela primeira vez a 24 de Novembro e a presidente da câmara de Caminha agiu nesse sentido apenas em 4 de Fevereiro. A cronologia dos factos, descrita pela câmara para nos esclarecer sobre a correcção dos seus procedimentos, deixa-nos a impressão de um tratamento excessivamente prioritário, a par de uma teimosia notável para que a obra não parasse. Até por se tratar de um licenciamento concedido ao pai de um vereador, o bom senso aconselharia prudência acrescida, que a presidente da câmara ignorou ao não corresponder de imediato às solicitações do IPPAR, ordenando a suspensão dos trabalhos.
Agora, a fuga para a frente, com uma campanha de propaganda a vitimizar-se e a contra-atacar, lembra o fenómeno das areias movediças em que quanto mais nos mexemos mais nos afundamos, e aí sim, tornamo-nos vítima, mas de nós próprios.
Quando a senhora presidente da câmara de Caminha fala, a propósito deste assunto, em “cultura castrense” ficamos a suspeitar de que estes temas estarão completamente arredados da sua atenção, porque, embora a palavra castrense tenha, na sua origem, também a ver com castros é usada habitualmente para designar assuntos militares de todos os tempos. Enquanto aquilo que podemos estudar em lugares como o Coto da Pena é a cultura castreja. Assunto mais limitado no tempo, mas muito mais amplo na vivência, cujos vestígios não nos interessarão a todos do mesmo modo, mas que qualquer câmara tem a obrigação indiscutível de defender de forma inequívoca.
Em jeito de conclusão atrevemo-nos a pedir, para este caso, um pouco mais de atenção aos vestígios castrejos e um pouco menos do pior da cultura castrense.
(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Março de 2004)