In vino veritas – exprime em latim a popular ideia de que sob os efeitos do álcool transparecem os aspectos mais autênticos do carácter de cada um. Se substituirmos o vinho pelo poder, em algumas pessoas, obtemos um efeito em tudo semelhante. Igualmente revelador. Do mesmo modo despudorado. No limite, destrutivo, dos próprios e dos outros. Mas verdadeiro, ao desvendar o carácter de quem o pratica, sob o efeito destes vapores inebriantes da ilusão do “quero, posso e mando”.
Hoje, recorro às páginas do Caminhense para manifestar a minha solidariedade com os presidentes das juntas de freguesia de Argela, Vilar de Mouros e Lanhelas, bem como com os representantes da comissão de moradores de Vilar de Mouros e da Corema. Ficamos a saber pelos jornais que a Câmara de Caminha entende que estas pessoas devem justificar perante o tribunal as suas atitudes de cidadãos empenhados na defesa do ambiente. Está em causa uma manifestação exemplar sob o ponto de vista cívico. Os manifestantes formaram um cordão humano, de algumas centenas de metros ao longo da marginal de Caminha, expressando preocupações sobre o futuro traçado do IC1. É com orgulho que afirmo também ter participado nessa acção. Fizemo-lo sem algazarra que incomodasse alguém. Sem alterar o normal andamento do trânsito. Sem o menor incidente… no mesmo dia em que o psd se comiciava com pouca gente, já que se tratava de um comício nacional, mas com muita algazarra, ocupando o espaço central da vila, com grandes perturbações no transito e nos hábitos das pessoas que cá vivem. Transtornos, no entendimento de alguns, de que nos devemos envaidecer, já que estamos a falar do partido do primeiro ministro de Portugal, a quem devemos o ar que respiramos… no seu melhor, claro! Porque quando se torna irrespirável é óbvio que o devemos a outros. Por isso a maioria dos portugueses votantes escolheram estes. Simples. Barato não é! E se dá milhões, não é para a esmagadora maioria que trabalha. Mas adiante!
A presidente da câmara talvez não tenha gostado de tanta serenidade na indignação. Tanta dignidade nos protestos. Tantos a protestar responsavelmente. E as televisões a falarem do assunto. Os jornais a fazerem primeiras páginas, com esta pacata manifestação. É compreensível, na perspectiva de quem se inebria nos vapores do poder, a dificuldade em digerir tudo isto. Tentou, de véspera, encontrar na lei impedimentos para a manifestação, com pormenores formais e habilidades de comunicação. Não surtiu efeito. Resta-lhe, agora, insistir na afirmação do seu poder. Mostrar quem manda. Procurar algum consolo nos tribunais. Creio que voltará a não surtir efeito. Porque todos sabemos que o que move estas pessoas é suficientemente justo e razoável. A manifestação, que em boa hora convocaram, foi um momento de cidadania responsável. Por isso de que os poderão acusar? De estarem demasiado lúcidos?
(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Outubro de 2003)