A Câmara Caminha arrisca-se a ter, ao que parece, no senhor João Silva, presidente da concelhia do PSD, o seu guardião omnipresente. Capaz de se bater com todos. Por tudo. Ao ataque e à defesa. Com os argumentos que estejam à mão. Bons ou maus, pouco importa. Porque o senhor Silva é um lutador daqueles a quem não se podem pedir boas maneiras, nem respeito pelos adversários, nem por ele próprio… o senhor Silva investe à bruta com a inércia das emoções baratas sobre tudo quanto mexa. Parece ser este o contexto em que escreveu mais uma das suas prosas de combate no último “Caminhense”, na sua missão de guarda avançada. Um notável exemplar do seu estilo inconfundível. Começa o texto com uma arrasadora consideração sobre a minha aparência – assustadora, pelos vistos! Confesso ter-me sentido um pouco embaraçado com este tipo de abordagem, embora seja assunto que me ultrapassa completamente. Se o senhor Silva se sente assustado, que posso eu fazer? Lamento, mas trata-se de um problema do referido senhor, não meu.
Estas atitudes do lider local do PSD tornam cada vez mais evidente algumas das razões porque tanta gente se afasta das actividades políticas. A falta de educação, o trauliteirismo verbal e uma absoluta incapacidade para interpretar as posições dos adversários tornam o convívio democrático uma experiência degradante, quando nos confrontamos com estes “(cam)peões da política”.
Mas avancemos para o objecto da divergência: as novas armas do concelho. O que eu expressei, no texto a que o senhor presidente do PSD de Caminha reage, foi a minha perplexidade perante a mudança das armas, não pela regularização do seu processo legal. Sobre a legalização, é óbvio que estamos todos de acordo. As minhas dúvidas prendiam-se com o seguinte: se aos símbolos do município para cumprir a lei faltavam a aprovação em assembleia municipal, publicação em Diário da República e respectivo registo na entidade competente, o que levou a câmara à mudança? Porque que não legalizou as que estavam em uso? É verdade que adianto algumas hipóteses pouco lisonjeiras para a câmara e para o senhor Carlos Mouteira. No entanto, legítimas, no quadro da ausência de esclarecimentos capazes de as excluir. O que se esperaria dos envolvidos, em circunstâncias normais, seria a apresentação das razões da necessidade deste novo desenho, a sua sustentação histórica por oposição ao anterior, a sua indispensabilidade. Mas sobre isso o silêncio mantém-se. E as dúvidas subsistem. Há quem especule sobre o assunto no resguardo da conversa a meia boca, naquele típico ambiente da coscuvilhice maledicente. Houve quem questionasse publicamente de forma franca e frontal, que foi o meu caso. Não adianta fugirem à questão. Todas as evasivas, toda a má educação e toda a arrogância mais não fazem do que convencer-nos de que querem lidar com os assuntos do concelho de Caminha como se de uma coutada pessoal se tratasse, o que é intolerável sob qualquer ponto de vista. Há munícipes que esperam explicações sérias e a Câmara Municipal tem a obrigação democrática de as dar.
A terminar o seu texto o senhor João Silva em nome da Comissão Política do PSD diz entender que há momentos em que o que está em causa é o Município de Caminha e aí devemos estar todos unidos, seja qual for a nossa opção política. Não posso deixar de concordar. Mas estou a pensar, creio, em assuntos diferentes dos que passaram pela sua cabeça. Estou a pensar no IC1, principalmente. Com o fim do período de Consulta Pública sobre as alternativas à ligação B2 a aproximar-se, não podemos deixar de nos preocupar seriamente com os projectos da Euroscut apoiados pelo PSD. A concretizarem-se, representarão perdas irrecuperáveis para um concelho que tem encontrado na natureza as suas poucas oportunidades de desenvolvimento e que ao permitir agressões irreversíveis a espaços fundamentais do seu território e das suas gentes estará a abrir caminho à descaracterização e a um modelo de falso progresso, sem respeito pela natureza e pelas pessoas. Quererá o senhor Silva abandonar a sua lógica estritamente partidária e abraçar esta causa concelhia? Porque todos não somos demais para impedir a aberração ambiental que ao ameaçar Argela, Vilar de Mouros e Lanhelas está a por em causa o concelho de Caminha na sua integridade global, será uma excelente oportunidade para por esta sua teoria em prática. Fica o desafio.
(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Agosto de 2003)