Quem me lê já ouviu, concerteza, contar inúmeras anedotas de doidos. Pois aguentem com mais esta e acompanhem-me, se quiserem, no que dela se confunda com a realidade da nossa vida concelhia:
Um sujeito passava calmamente junto a um hospital psiquiátrico e, subitamente, sem que nada o fizesse prever, cai-lhe em cima um tijolo. Levou as mãos à cabeça ferida. Olhou em volta ainda atordoado e viu dentro de grades, no hospital, um homem que freneticamente gesticulava para que ele o visse. O suposto “louco” parou o frenesim dos gestos e ainda ofegante começou a explicar-se. Foi ele quem atirou o tijolo. Lamentava. Lamentava muito. Mas não lhe tinha sobrado outra solução. Já tinham passado muitas semanas desde que o encarceraram naquele hospício e todas as tentativas para falar com alguém de fora tinham sido em vão. Estava já em desespero de causa. A ideia de agredir alguém com o tijolo para ser ouvido surgiu-lhe naquele dia, no limite das suas forças para resistir à conspiração que a família e médicos sem escrúpulos montaram para se apropriarem dos seus bens. Precisava que alguém o ouvisse e denunciasse a situação às autoridades. O sujeito agredido à medida que foi ouvindo a história dramática do outro foi aceitando a pedrada como necessária, a história como verdadeira e dispôs-se a colaborar. Iria dali directo às autoridades mais próximas para pôr cobro àquela injustiça. Estava convencido. Podia contar com a sua solidariedade. Despediram-se com um aceno fraterno de cumplicidade resistente. O homem de cabeça partida ainda não tinha acabado de pousar o pé para o segundo passo já lhe estava a cair novo tijolo na cabeça. Gritou de dor. Olhou para trás, atordoado, confuso… Lá estava o outro novamente a gesticular e aos gritos: “Não se esqueça! Não se esqueça!”
Assim, nas anedotas como na vida real, um gesto, uma atitude, uma palavra… confirmam ou desmentem o que está a ser afirmado. Um discurso de seriedade e de rigor não se alimenta com práticas menos claras, com sinais de inconsistência flagrante entre formas e conteúdos, com suspeitas de interesses nebulosos ou com manipulações da boa-fé alheia.
As novas Armas do Concelho de Caminha nascem envoltas nesta atmosfera de “história mal contada”. A actual câmara foi confrontada com um pedido da Direcção Geral das Autarquias Locais dos registos legais e desenhos em suporte digital dos símbolos heráldicos em uso no concelho. Constata que os mesmos não se encontram devidamente legalizados. Do que conseguimos perceber o processo iniciado em oitenta e seis parou após aprovação em reúnião de câmara. Aparentemente por negligência. Não chegou a ser apresentado à assembleia municipal para a respectiva aprovação, posterior publicação em Diário da República e correspondente registo na Direcção Geral. O aproveitamento político da situação exigiu dramatismo, “a primeira tijolada”, o quadro foi pintado de negro profundo. A situação era, no dizer do executivo camarário PSD, de tal forma grave que justificava medidas drásticas. Imprimiram provisóriamente material gráfico da câmara com o símbolo da República Portuguesa em substituição da simbologia anterior. Deixou de se hastear a bandeira. Chegou-se ao ponto de pôr funcionários a apagar com corrector o anterior símbolo do concelho, nos envelopes que enviavam aos munícipes, tal era o zelo e o rigor! A partir de certa altura deixou de se perceber se o que estava em causa era o cumprimento de determinadas formalidades legais, ou se existiam na anterior heráldica concelhia elementos gráficos ou simbólicos que não estavam de acordo com os critérios do Instituto Português de Heráldica. O facto de terem incumbido alguém de desenhar novas armas para o concelho, levou muitos a pensar que assim seria. De outro modo poderia suspeitar-se que se tratava apenas de um capricho. Ou, pior, de oportunismo de quem por vaidade irresponsável altera por alterar. Ou para o senhor Carlos Mouteira poder acrescentar ao seu curriculo o desenho dos símbolos de um concelho, com aparentes vantagens pessoais, já que é fornecedor deste tipo de serviço às juntas de freguesia. Até possui uma página na net chamada “Freguesias de Portugal” onde o símbolo da República Portuguesa se apresenta juntamente com o título, em ambiente que poderá induzir os menos atentos a pensar que é um site oficial da administração pública, quando de facto não é. Mas continuemos! Certo é que, enquanto o diabo esfrega um olho, a assembleia municipal é confrontada com a nova heráldica para aprovar. O clima das últimas semanas dava a qualquer objecção um carácter inoportuno. Só dois deputados municipais se abstiveram. Caminha tinha novo Brasão. No passado dia vinte e seis a Câmara associou às comemorações da Outorga do Foral a apresentação dos novos símbolos. O evento foi anunciado com grandiosidade. Fui. Não ouvi nenhuma explicação sobre esta mudança. Na brochura que foi oferecida ao público nem uma pequena nota sobre o assunto. Entretanto, assisti à apresentação dos novos símbolos ao som de música que me pareceu galega. Senti “a segunda tijolada”.
(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Julho de 2003)