Goya e Picasso

Março 31, 2003

No início do século dezanove, Goya, um extraordinário pintor do seu tempo (e de todos os tempos) retratou um momento das invasões napoleónicas em terras de Espanha, “Os Fuzilamentos de Maio”. É um dos mais impressionantes gritos contra a desumanidade da lógica militar em acção. Os soldados franceses são apresentados pelo pintor como uma estrutura implacável na sua capacidade de matar. E o desespero lancinante dos que morrem não nos lembra heroísmos nem outros paliativos para mortes anunciadas. São a cruel expressão dos que morrem sem escolha. Dos que são condenados sem qualquer culpa. Condenados por um destino cruel de terem nascido na terra errada no tempo errado. Goya, no seu profundo humanismo, não se ficou pela sensibilidade do momento. Pintou com peito aberto um grito universal presente na cultura da humanidade dois séculos depois.

Outro genial pintor espanhol, Picasso, cento e trinta anos depois, perante os trágicos bombardeamentos nazis, durante a guerra civil espanhola, sobre a cidade basca de Guernica, destruindo-a completamente e matando crianças, mulheres, homens e animais de forma devastadora e cruel, pintou um painel para a Exposição Internacional de Paris de 1937, com idêntica atitude universal. Na tela de enormes dimensões não há identidade para os agressores. Há um imenso inferno de movimentos desesperados preenchido por um povo massacrado por um inimigo sem rosto. Criança de colo que a mãe procura proteger em vão, animais que gritam como pessoas, corpos mutilados… nem glória, nem herois! A guerra nua e crua na sua desumanidade. Em contraste tímido com todo este ambiente de violência apocalíptica, uma flor quase imperceptível desponta junto a uma mão decepada e uma espada partida. Um eloquente sinal de esperança, em tempo de desespero.

Estou convencido que é esta Europa, do Goya e do Picasso, da cultura da paz, que vale a pena aprofundar e legar aos nossos filhos. Não uma Europa alinhada numa espiral de violência em nome da supremacia do “Império do Bem” contra o “Eixo do Mal”, a fazer lembrar argumentos de outros saques vergonhosos de épocas passadas.

Os senhores da guerra mandam matar em nome de deus, da democracia, da liberdade ou até da paz. As guerras a que temos assistido nos últimos anos, e a que se anuncia agora, são apresentadas como libertadoras dos povos e demonstrando a infinita generosidade dos poderosos deste mundo para com os povos oprimidos. Deverão, por isso, tremer os tiranos? Os seus dias de terror estarão em contagem decrescente? Será que a humanidade pode contar com um protector desinteressado e implacavelmente justo? Haverá quem acredite neste altruismo dos senhores que dirigem os destinos dos Estados Unidos da América e que insistem em tratar o resto do mundo com uma arrogância absurda e perigosa? Não creio. E muito menos compreendo que alguém no seu perfeito juízo se queira tornar cúmplice desta escalada belicista. A não ser por interesses sem escrúpulos ou por uma ingénua mas criminosa necessidade de acompanhar os poderosos e apanhar as migalhas do poder.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Março de 2003)

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