Arquivo para Março, 2003

Saddam e Bush

Março 31, 2003

Entre a autenticidade das nossas emoções ou pensamentos e a necessidade de confrontarmos as nossas razões e sentimentos com os outros, percorremos muitas vezes caminhos que não pudemos escolher. Deixamos explodir emoções que gostariamos de ter controlado. Ou calamos e sofremos a asfixia de não ter dito. Contudo, infinitamente pior que estas inquietações é, sem dúvida, a recusa obstinada de alguns de nós em sentir ou pensar. Pior, pelo desprendimento egoista. Pior, pelo desprezo pela nossa condição humana. Pior, pela traição para com a dignidade de partilhar a vida com os outros.

O mundo em que vivemos é perpassado por um egoísmo bacoco, recheado com a superioridade moral dos que se gabam de não perder o seu precioso tempo com determinados assuntos. A política e outras actividades cívicas e culturais são, normalmente, o âmbito natural desta apreciação sobranceira. Com a autoridade que lhes advém das novas leis da selva os conformados explicam-nos com ar paternalista, aos que não nos adaptamos a esta sensatez dominante, que não deviamos desperdiçar as nossas vidas em coisas que não possam ser depositadas nos bancos. Que no mundo sempre existiram e sempre existirão injustiças. Que não vamos ser nós, peões insignificantes, que as vamos resolver. Que a nossa generosidade vai servir ambições de outros menos ingénuos. Enfim, uma panóplia de argumentos perspicazes e inteligentes que nos reduzem ao papel de idiotas inadaptados à realidade de um mundo com regras simples e práticas.

No que me toca, devia agradecer essas atenções e seguir o meu caminho porque não tenho alma de missionário. Não sinto necessidade de converter ninguém. No entanto, geralmente não resisto e esgrimo sentidamente os meus pontos de vista. Quando não o faço, tenho a estranha impressão que algo apodrece à minha volta.

Senti isso na véspera do dia em que começou esta abominável guerra que americanos e ingleses teimaram em fazer no Iraque. Estava a tomar o meu pingo-directo da manhã, no Central, quando a conversa de dois clientes em pontos opostos do balcão desembocou na guerra. Um deles manifestava revolta pela hipocrisia criminosa desta América do senhor George W. Bush. O outro replicou com a sabedoria de quem sabe o que é a democracia e a liberdade em versão compacta para uso popular, com a história da segunda guerra mundial, reescrita no balcão do café, para ilustrar a dívida eterna desta Europa para com uma América generosa e desinteressada. Afinal, essa América sempre esteve na primeira linha da luta contra as ditaduras, sustentava. O primeiro enumerou diversas intervenções americanas pouco edificantes em termos democráticos e de direitos humanos. O outro lembrou o curriculo hediondo do ditador iraquiano e rematou aconselhando o primeiro a deixar-se de esquerdismos primários. A conversa acabou minutos após ter começado, o dia era de trabalho para todos. Cada um foi para seu lado. Eu também. Paguei o pingo e a torrada. E passei a meia hora seguinte a digerir com dificuldade aquela apologia de uma América guerreira pela justiça e pela paz.

Pensei que o facto de ter entrado na segunda guerra mundial apenas depois de ter sido atacada pelos japoneses em Pearl Harbour talvez fosse um pormenor sem significado. E o aproveitamento da situação de guerra para obrigar os ingleses a pagar fortunas por armamento indispensável para enfrentar o expansionismo nazi, talvez não tenha tido qualquer relevância para entender o assunto. E aquela atitude, no final da guerra, de lançar as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki? Serão motivo de orgulho para os aliados? Ou só não são considerados crimes contra a humanidade porque os vencedores das guerras não cometem crimes, branqueiam as suas atrocidades com a força do seu poder vencedor? É óbvio que nada disto anula a importância da participação americana na vitória sobre o nazismo. Mas tal como a contribuição da URSS de Estaline não o transformou num democrata também a contribuição americana não nos torna reféns dos interesses e caprichos dos seus dirigentes. Tal como não podemos eternizar a imagem da Alemanha desumana desses tempos, ou considerar que a única atrocidade contra a humanidade nos últimos tempos foi o 11 de Setembro, desvalorizando as realidades presentes filtrando-as com clichés redutores para uso interesseiro e criminoso.

Guerras, como aquela a que estamos a assistir, para controlo geo-estratégico e domínio económico de regiões do planeta apresentadas em nome da liberdade e da democracia são uma afronta a todos e a cada um de nós. De uma aviltante e insuportável hipocrisia. Entre o Saddam e o Bush o diabo que escolha! Entre a guerra e a paz… não! Temos obrigação de consciência de responder da forma que cada um puder e fôr capaz, em nome da liberdade, da democracia e da dignidade humana. Nem que seja com o simples gesto simbólico de colocar um pano branco numa janela ou varanda da nossa casa, como tem sido sugerido pela ATTAC Portugal e por diversos partidos em Viana do Castelo. É imperativo que nenhum de nós se demita da sua condição humana numa ocasião como esta. Este pode ser o lado positivo da globalização, tenhamos nós vontade de o entender.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Março de 2003)

Goya e Picasso

Março 31, 2003

No início do século dezanove, Goya, um extraordinário pintor do seu tempo (e de todos os tempos) retratou um momento das invasões napoleónicas em terras de Espanha, “Os Fuzilamentos de Maio”. É um dos mais impressionantes gritos contra a desumanidade da lógica militar em acção. Os soldados franceses são apresentados pelo pintor como uma estrutura implacável na sua capacidade de matar. E o desespero lancinante dos que morrem não nos lembra heroísmos nem outros paliativos para mortes anunciadas. São a cruel expressão dos que morrem sem escolha. Dos que são condenados sem qualquer culpa. Condenados por um destino cruel de terem nascido na terra errada no tempo errado. Goya, no seu profundo humanismo, não se ficou pela sensibilidade do momento. Pintou com peito aberto um grito universal presente na cultura da humanidade dois séculos depois.

Outro genial pintor espanhol, Picasso, cento e trinta anos depois, perante os trágicos bombardeamentos nazis, durante a guerra civil espanhola, sobre a cidade basca de Guernica, destruindo-a completamente e matando crianças, mulheres, homens e animais de forma devastadora e cruel, pintou um painel para a Exposição Internacional de Paris de 1937, com idêntica atitude universal. Na tela de enormes dimensões não há identidade para os agressores. Há um imenso inferno de movimentos desesperados preenchido por um povo massacrado por um inimigo sem rosto. Criança de colo que a mãe procura proteger em vão, animais que gritam como pessoas, corpos mutilados… nem glória, nem herois! A guerra nua e crua na sua desumanidade. Em contraste tímido com todo este ambiente de violência apocalíptica, uma flor quase imperceptível desponta junto a uma mão decepada e uma espada partida. Um eloquente sinal de esperança, em tempo de desespero.

Estou convencido que é esta Europa, do Goya e do Picasso, da cultura da paz, que vale a pena aprofundar e legar aos nossos filhos. Não uma Europa alinhada numa espiral de violência em nome da supremacia do “Império do Bem” contra o “Eixo do Mal”, a fazer lembrar argumentos de outros saques vergonhosos de épocas passadas.

Os senhores da guerra mandam matar em nome de deus, da democracia, da liberdade ou até da paz. As guerras a que temos assistido nos últimos anos, e a que se anuncia agora, são apresentadas como libertadoras dos povos e demonstrando a infinita generosidade dos poderosos deste mundo para com os povos oprimidos. Deverão, por isso, tremer os tiranos? Os seus dias de terror estarão em contagem decrescente? Será que a humanidade pode contar com um protector desinteressado e implacavelmente justo? Haverá quem acredite neste altruismo dos senhores que dirigem os destinos dos Estados Unidos da América e que insistem em tratar o resto do mundo com uma arrogância absurda e perigosa? Não creio. E muito menos compreendo que alguém no seu perfeito juízo se queira tornar cúmplice desta escalada belicista. A não ser por interesses sem escrúpulos ou por uma ingénua mas criminosa necessidade de acompanhar os poderosos e apanhar as migalhas do poder.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Março de 2003)