Entre a autenticidade das nossas emoções ou pensamentos e a necessidade de confrontarmos as nossas razões e sentimentos com os outros, percorremos muitas vezes caminhos que não pudemos escolher. Deixamos explodir emoções que gostariamos de ter controlado. Ou calamos e sofremos a asfixia de não ter dito. Contudo, infinitamente pior que estas inquietações é, sem dúvida, a recusa obstinada de alguns de nós em sentir ou pensar. Pior, pelo desprendimento egoista. Pior, pelo desprezo pela nossa condição humana. Pior, pela traição para com a dignidade de partilhar a vida com os outros.
O mundo em que vivemos é perpassado por um egoísmo bacoco, recheado com a superioridade moral dos que se gabam de não perder o seu precioso tempo com determinados assuntos. A política e outras actividades cívicas e culturais são, normalmente, o âmbito natural desta apreciação sobranceira. Com a autoridade que lhes advém das novas leis da selva os conformados explicam-nos com ar paternalista, aos que não nos adaptamos a esta sensatez dominante, que não deviamos desperdiçar as nossas vidas em coisas que não possam ser depositadas nos bancos. Que no mundo sempre existiram e sempre existirão injustiças. Que não vamos ser nós, peões insignificantes, que as vamos resolver. Que a nossa generosidade vai servir ambições de outros menos ingénuos. Enfim, uma panóplia de argumentos perspicazes e inteligentes que nos reduzem ao papel de idiotas inadaptados à realidade de um mundo com regras simples e práticas.
No que me toca, devia agradecer essas atenções e seguir o meu caminho porque não tenho alma de missionário. Não sinto necessidade de converter ninguém. No entanto, geralmente não resisto e esgrimo sentidamente os meus pontos de vista. Quando não o faço, tenho a estranha impressão que algo apodrece à minha volta.
Senti isso na véspera do dia em que começou esta abominável guerra que americanos e ingleses teimaram em fazer no Iraque. Estava a tomar o meu pingo-directo da manhã, no Central, quando a conversa de dois clientes em pontos opostos do balcão desembocou na guerra. Um deles manifestava revolta pela hipocrisia criminosa desta América do senhor George W. Bush. O outro replicou com a sabedoria de quem sabe o que é a democracia e a liberdade em versão compacta para uso popular, com a história da segunda guerra mundial, reescrita no balcão do café, para ilustrar a dívida eterna desta Europa para com uma América generosa e desinteressada. Afinal, essa América sempre esteve na primeira linha da luta contra as ditaduras, sustentava. O primeiro enumerou diversas intervenções americanas pouco edificantes em termos democráticos e de direitos humanos. O outro lembrou o curriculo hediondo do ditador iraquiano e rematou aconselhando o primeiro a deixar-se de esquerdismos primários. A conversa acabou minutos após ter começado, o dia era de trabalho para todos. Cada um foi para seu lado. Eu também. Paguei o pingo e a torrada. E passei a meia hora seguinte a digerir com dificuldade aquela apologia de uma América guerreira pela justiça e pela paz.
Pensei que o facto de ter entrado na segunda guerra mundial apenas depois de ter sido atacada pelos japoneses em Pearl Harbour talvez fosse um pormenor sem significado. E o aproveitamento da situação de guerra para obrigar os ingleses a pagar fortunas por armamento indispensável para enfrentar o expansionismo nazi, talvez não tenha tido qualquer relevância para entender o assunto. E aquela atitude, no final da guerra, de lançar as bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki? Serão motivo de orgulho para os aliados? Ou só não são considerados crimes contra a humanidade porque os vencedores das guerras não cometem crimes, branqueiam as suas atrocidades com a força do seu poder vencedor? É óbvio que nada disto anula a importância da participação americana na vitória sobre o nazismo. Mas tal como a contribuição da URSS de Estaline não o transformou num democrata também a contribuição americana não nos torna reféns dos interesses e caprichos dos seus dirigentes. Tal como não podemos eternizar a imagem da Alemanha desumana desses tempos, ou considerar que a única atrocidade contra a humanidade nos últimos tempos foi o 11 de Setembro, desvalorizando as realidades presentes filtrando-as com clichés redutores para uso interesseiro e criminoso.
Guerras, como aquela a que estamos a assistir, para controlo geo-estratégico e domínio económico de regiões do planeta apresentadas em nome da liberdade e da democracia são uma afronta a todos e a cada um de nós. De uma aviltante e insuportável hipocrisia. Entre o Saddam e o Bush o diabo que escolha! Entre a guerra e a paz… não! Temos obrigação de consciência de responder da forma que cada um puder e fôr capaz, em nome da liberdade, da democracia e da dignidade humana. Nem que seja com o simples gesto simbólico de colocar um pano branco numa janela ou varanda da nossa casa, como tem sido sugerido pela ATTAC Portugal e por diversos partidos em Viana do Castelo. É imperativo que nenhum de nós se demita da sua condição humana numa ocasião como esta. Este pode ser o lado positivo da globalização, tenhamos nós vontade de o entender.
(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Março de 2003)