Todos precisamos de momentos de fantasia. Instantes de sonhos fingidos em que até os poderosos valorizem a generosidade sincera, a paz, a justiça, o respeito pelas diferenças… em que a dignidade humana se imponha como propósito universal. O calendário cristão propõe à humanidade um desses momentos no final de cada ano. Há algumas décadas atrás todo este fingimento amável era protagonizado, em terras de Portugal, pela tão frágil como poderosa imagem do Menino Jesus. Um menino símbolo da infinita capacidade humana de mudar o mundo. Um grito de alegria e esperança por tempos mais justos.
Como com estas emoções se temperam nobres causas, mas também grandes negócios, e como com negócios não se brinca, os poderosos deste mundo substituiram este menino cheio de sabedoria ingénua por um velhote gorducho e simpático, vindo das terras frias, vestido por uma das mais importantes multinacionais de refrigerantes do planeta, carregado de prendas para quem as possa comprar e a bondade própria de quem as quer vender. O S. Nicolau, que está na base deste Pai Natal do nosso tempo, viveu há dois mil e quatrocentos anos na Turquia e não se prestaria a este mercantilismo de sentimentos. Muito pelo contrário, a história que se conta a seu respeito é a de um homem extremamente tímido e generoso, incapaz de exibir as suas qualidades. Conclusão: Este não será sequer o verdadeiro Pai Natal. Mas adiante!
O nosso menino em pouco tempo viu-se substituido por este homem com ar de avô da humanidade e activista amestrado da globalização. Fomos nós que o relegamos para um secundaríssimo papel nestas festas. Deixamos de fazer presépios e passamos a sacrificar, em altares de consumo inebriante, árvores de Natal. Os sapatinhos postos à espera das lembranças do Menino passaram a peúgas para as prendas do Pai Natal. Dá para pensar que o Menino Jesus tem inimigos implacáveis. Talvez a culpa seja de um tal Alberto Caeiro por ter contado, a quem quis ler, que o menino tinha fugido do Céu por ser demasiado humano para suportar o fingimento divino e lhe confidenciou muito mal de Deus. Sobre a Virgem Maria contou que passava as tardes da eternidade a fazer meia. E do Espírito Santo, a tal pomba divina, disse que se empoleirava nas cadeiras e as sujava. Ora não são coisas que uma criança diga da família. Tanta franqueza, delatada pelo poeta maior do século vinte português, pode ter comprometido irremediavelmente a confiança dos poderosos homens de negócios neste menino. E nós, ingenuamente como quase sempre, alimentamos em comportamento de rebanho esta condenação ao esquecimento.
Mesmo tendo abandonado, por honestidade para com a minha consciência, as actividades e crenças católicas em que fui educado, há em mim uma memória de infância que me impele à solidariedade com este menino. Devo-lhe sonhos e doces mistérios que no tempo próprio me encantaram. Por isso é a ele que escrevo neste Natal de 2002, mais para um desabafo de amigos, não para lhe fazer pedidos ou meter cunhas.
Menino Jesus,
Escrevo-te de Caminha, em 24 de Dezembro de 2002, antes de mais, para te dizer que o mundo tem mudado alguma coisa, mas tão lentamente que só mesmo a tua paciência o compreenderá. A escravatura, tal como a entendiam no tempo dos teus pais terrenos, deixou de ser uma forma de organizar a sociedade moralmente defensável, pelo menos nas suas características mais violentas, mas nem por isso deixou de existir. O actual modelo de organização social, saído da ruptura com um tempo feudal, em que até tu, revolucionário assumido contra a escravatura, foste utilizado ao serviço das atrocidades mais cruéis, é nada mais nada menos do que uma espécie de selva financeira onde sobrevivem os mais fortes, que não raro quer dizer os capazes de canibalizar os outros. Desculpa. Não te vou maçar com estas generalidades que decerto já conhecerás.
A minha intenção, ao escrever-te esta carta, é falar sobre abomináveis manchas de crude e infelizes manchas de comportamento. Tudo começou em meados de Novembro quando um petroleiro chamado Prestige, que se deslocava do Norte da Europa para o Mediterrâneo, ao contornar o Cabo Finisterra, sofreu um enorme rombo no casco. Ao pedido de autorização do capitão grego, que comandava o navio, para entrar num porto espanhol onde trasfegasse a sua carga altamente poluente, as autoridades espanholas tomaram a opção, politicamente mais suave no imediato mas que envolvia maiores riscos ambientais, de o obrigar a passear pelo mar, até que se produziu um grande desastre ambiental de consequências incontroláveis. Depois, demoraram uma semana a começar a reagir, preferiram meter a cabeça na areia a reconhecer o que já era óbvio para todos. Perderam tempo precioso no combate à poluição. Não deram o apoio que se esperaria numa catástrofe desta natureza aos milhares de voluntários que generosamente se mobilizaram para a minimizar. De asneira em asneira, as autoridades espanholas e galegas criaram um mal-estar profundo, difícil de superar.
E por cá? Como reagimos nós a este atentado ao oceano que é de todos. Nem queiras saber, Menino Jesus, foram brilharetes atrás de brilharetes. O nosso ministro da defesa passou a especialista nestes assuntos. Multiplicou-se em declarações em que para além de nos sossegar sobre a defesa da nossa integridade nacional, com alguma razão apesar de tudo, mostrou as suas qualidades como porta voz dos técnicos, exemplarmente claro e preciso. Mas fez-nos lembrar aqueles professores que brilham nos meios académicos à custa dos trabalhos dos alunos, nem sempre com o nítido espaço do seu a seu dono.
Caminha andou numa roda viva. Com muita gente importante a pousar por estas bandas. Havia, e ainda há, o perigo de a costa portuguesa ser vitimada pela maré negra. A certa altura, em que a iminência da catástrofe atingir a costa norte de Portugal se colocou com maior probabilidade, foi um redemoinho de actividade mediática na vila: Televisões, rádios, jornais, vieram de todo o lado. O país ficou com a ideia de que havia planos, organização e capacidade para enfrentar o novo Adamastor Negro. Mas há quem não acredite… há sempre quem não acredite, pensas tu! Terás razão, mas neste caso há pequenos sinais no meio deste circo mediático que retiram credibilidade ao que é dito.
Quando parecia inevitável a vinda das manchas de crude para a costa portuguesa as autoridades utilizaram uma draga, que se deslocou da Figueira da Foz para Caminha, numa tentativa de combater a poluição longe da costa. Avariou mal começou o seu trabalho. O dr. Paulo Portas anunciou, com o vigor e a destreza de quem se revela em situações de crise, a contratação de um navio norueguês para combater a maré negra. O navio veio para Viana, foi preparado para a sua tarefa, rumou ao seu trabalho… e avariou no segundo dia. Não achas azar excessivo, Menino Jesus?
E aqui em Caminha? Passamos semanas a ouvir a presidente da câmara dizer que estava tudo a ser convenientemente preparado, mas depois ouvimos ambientalistas a dizer que tinham sido ignorados e acabamos brindados com mais uma magnífica folha informativa da câmara n’O Caminhense em que metade da página é preenchida com uma fotografia da dra. Júlia Paula sorridente a ser entrevistada pela RTP. Uma imagem pungente que nos sensibiliza para o duro combate que está a ser travado pelo nossos vizinhos galegos com os quais se diz querer aprofundar laços de fraternidade, mas pelos vistos só em ocasiões festivas.
Também houve sinais animadores. Os pescadores daqui mostraram uma serenidade e um sentimento fraternal para com os companheiros galegos dignos de registo. Os ambientalistas depressa esqueceram o desprezo a que tinham sido sujeitos e mostraram-se mobilizados e dispostos a trabalhar. O dr. Francisco Sampaio e os Bombeiros de Vila Praia de Âncora solidarizaram-se em palavras e actos: Foram homens desse corpo de bombeiros combater a poluição na Galiza.
Menino Jesus, do que vi, ouvi e li, fiquei com a impressão de que se o perigo se transformar no pior há poses que se vão desmoronar. Mas prefiro, sinceramente, que esse teste não se faça. E gostava de ver os nossos políticos saírem deste alívio egoísta e encararem os estragos na Galiza como se fossem nossos. É nas dificuldades que se manifesta o mais profundo da amizade. Não achas?
Recebe um beijo fraterno e passa um Bom Natal,
Carlos da Torre
(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Dezembro de 2002)