A minha filha Carolina este Verão aprendeu a andar de bicicleta. Primeiro insegura e com rodinhas de apoio. Depois, pedia-nos, a mim e à mãe, que a segurassemos e ia circulando em completa dependência de um de nós. A certa altura parámos para pensar. Já todos tinhamos passado por aquilo. No fundamental as nossas experiências coincidiam: Primeiro, era importante olhar em frente e não para a roda. Segundo, pressionar um pedal com convicção e deixar cair o peso do corpo sobre ele. Terceiro, reagir ao desequilíbrio compensando, harmoniosamente, com a pressão exercida sobre o pedal oposto. A confiança com que atacamos o primeiro pedal e contra-atacamos o segundo e a calma com que olhamos para onde queremos ir, são determinantes para o sucesso da pedalada. Depois, resolvidos os problemas do equilíbrio, podemos deslocar-nos com prazer, sempre cuidando não atropelar ninguém. Exibicionismos ficam para o circo ou para espaços apropriados a actividades radicais. Destes conselhos retirou a Carolina o bastante para rapidamente se autonomizar pedalando cuidadosamente sem ajudas humilhantes. Pena não ser tudo assim tão simples na vida. Se observarmos, por exemplo, alguma vida política veremos como está eivada de outras lógicas de dependência, intriga, ignorância, vaidade, cobardia, deslealdade, vingança, enfim, coisas de que um cristão se poderá redimir em espaço de confissão e repetir em espaço político, num infinito ciclo de pequenas emoções para gente pequena.
No último “Caminhense” sob o título “Tentar repor a dignidade do concelho de Caminha” a comissão política concelhia do PSD subscreve uma estranhíssima prosa que, de algum modo, se enquadra na indignidade em que alguns teimam colocar a actividade política. Se taparmos o texto e tentarmos pelo título adivinhar o conteúdo estaremos condenados a um insucesso absoluto. Não trata aquele do conflito que opõe a Câmara à maioria dos outros intervenientes no processo de consulta pública sobre o estudo de impacto ambiental do IC 1, não se refere ao terrorismo institucional contra a ETAP, não vem melhorar esclarecimentos sobre os critérios de contratação de pessoal da Câmara, não vem, sequer, explicar as gafes protocolares de um vereador que, de tal forma nos confunde que já não sabemos muito bem se ele julga viver em monarquia ou república, enfim, nada do que, pelo menos a mim, parecia dar propósito a um título tão pesado se revela na ligeireza do texto. A concelhia do PSD encheu-se de pequenos brios e, enquanto o concelho se agita numa tempestade de conflitos provocados pela inépcia dos seus eleitos, vai à sua arca de valores e retira a honra, o respeito e a dignidade e vem à luta munida de um alfinete.
Perante a inoportunidade e a ligeireza da argumentação fiquei num dilema: Ignorar a picada ou reagir? Acabei por tomar a segunda opção, por três razões: primeiro, por estar convencido da utilidade do debate sobre as opções culturais dos poderes, quaisquer que sejam esses poderes, e neste caso concreto quanto mais avança a polémica mais se evidencia a dimensão medíocre dessas escolhas; segundo, porque o PSD como partido no poder, no concelho de Caminha, tem responsabilidades acrescidas que não se compadecem com cegueiras provocadas pelo novo-riquismo cultural e pelo deslumbramento saloio, pelo que deve ser confrontado com a sua irracionalidade, até porque, creio sinceramente, haver muita gente no PSD que não se revê nestas atitudes; terceiro, seria ingrato da minha parte não responder a uma comissão política que se deu à canseira de ler com tão esforçada atenção as minhas opiniões e, embora os resultados dessa leitura denotem algumas dificuldades de interpretação, não deixo de a registar agradecido.
Neste ponto, e antes de entrar na listagem de temas que a comissão política entendeu como questão que dramaticamente nos divide, gostaria de referir que a crítica de sobranceria que tanto a presidente da câmara como agora a comissão política me fizeram tocou-me particularmente. Puseram-me a pensar sobre o assunto. Será que me estou a pôr em bicos de pés? Quem sou eu para questionar o desempenho das digníssimas pessoas que ocupam o poder? Ou “dos homens que honram Portugal” como eles dizem? Vão-me desculpar, mas encontrei um acréscimo de legitimidade nas reacções dos senhores do PSD. Na sua atitude de rei surpreendido em nudez ignorante. É óbvio, para quem queira ver, que como na história do “rei vai nu” há aqui uma corte de conveniências cegas e de cegueiras convenientes.
Analisemos agora as partes para melhor nos situarmos em relação ao que está em causa:
1. Maestro António Victorino d’Almeida
Crescemos todos, os da minha idade e os mais velhos, com o privilégio de acompanhar pela televisão os magníficos programa de divulgação musical do maestro. A imagem de um homem sábio e excêntrico de bengala na mão, recordo-a dos mais diversos sítios. Lembro-me da emoção da ante-estreia do filme “A culpa”. Recordo o entusiasmo do Festival de Vilar de Mouros de oitenta e dois. Lá estava o maestro Victorino d’Almeida de alma e coração. No primeiro festival, onze anos antes, eu era ainda muito novo. Associo-o a muitas das manifestações culturais marcantes da vida portuguesa. Sem dúvida. O maestro, homem político, generoso, franco, polémico, surpreendente, também se cruza na minha memória de vida. Na sua candidatura ao parlamento europeu senti orgulho em participar na campanha, em colar cartazes, em anunciar sessões de esclarecimento; foram bons momentos de entusiasmo político. Nas últimas autárquicas o maestro António Victorino d’Almeida chegou a ser a primeira opção do Bloco de Esquerda para a Assembleia Municipal de Caminha, tanto quanto julgo saber, só não o foi por indisponibilidade de tempo. As críticas que fazia à Câmara PS no âmbito da política cultural orientavam-se de forma mais incisiva sobre dois pontos: o desprezo da Câmara pela situação em que se encontrava o Teatro Valadares e a sua revolta pelo desvirtuar do projecto do Festival de Vilar de Mouros. Não podíamos estar mais de acordo. Para além destas questões, que nos dizem respeito a todos, havia entre o maestro António Victorino d’Almeida e o poder do Partido Socialista um conflito pessoal, que desconheço quando e como começou, mas que era evidente e que resultava num desaproveitamento de um caminhense de méritos firmados.
Este novo pelouro da cultura não tinha nada que o impedisse de retomar a normalidade no relacionamento com o maestro e tomou essa iniciativa. Transformou a situação numa galinha dos ovos de ouro. As segundas-feiras do maestro e seus convidados, a maior parte delas em espaços onde não cabiam mais de cem pessoas, foram interessantes, disse-o antes e repito-o agora. Por que insisto, então, em evidenciar que a maior parte dos locais onde foram feitos estes espectáculos não comportavam grandes públicos? Porque me pareceu uma opção que deixou de fora muitas pessoas interessadas nos concertos ou que a eles assistiram em condições de grande incomodidade. Para esta situação não houve a mínima sensibilidade da Câmara Municipal que apesar de ter sinais claros desde os primeiros concertos de que seria assim, preferiu o sucesso das casas cheias. Mas há mais. Nunca vi, fora de campanhas eleitorais em lado nenhum, um protagonismo tão grande, e às vezes tão ridículo, de políticos em acontecimentos culturais. Na Igreja da Misericórdia chegamos a esperar quarenta e cinco minutos pelo início do concerto “por uma boa causa” explicou-nos a dra. Júlia Paula, o sr. governador civil de Viana do Castelo estava atrasado. No espectáculo oferecido aos nossos vizinhos galegos o público, os músicos e as autoridades galegas esperaram tempo idêntico, aí a “boa causa” foi a nossa presidente de câmara. Não estive lá, contaram-me. Houve momentos em que ficou a estranha sensação de que os concertos foram organizados para consagração de um trio municipal e que a presença do público correspondia à necessidade de testemunhas, não mais do que isso, tal era o à-vontade e o despudor.
A cumplicidade do maestro António Victorino d’Almeida neste tipo de situações incomodou-me de forma profunda e sentida. Se consigo entender que o homem da cultura prefira ser utilizado a ser inutilizado, já não consigo perceber o alheamento de tudo o mais. A aparente ausência de limites profissionais, deixa-me um amargo de alma, constrangedor. Gostava de estar enganado. Sinceramente. Mas a vida prega-nos partidas destas.
2. Rancho Folclórico Verde Gaio do Rio de Janeiro
A minha crítica ao dito rancho folclórico Verde Gaio é objectiva e simples. Não tem rigorosamente nada a ver com o ser bonito ou feio. Não depende do meu gosto em contraponto ao gosto de outras pessoas. Nem fica desvalorizada por muita gente se ter divertido com o espectáculo. Tentemos ser claros. Os ranchos folclóricos são uma criação dos anos vinte e trinta em Portugal, corresponderam a uma tendência não só portuguesa mas europeia para valorizar trajos, adornos, danças, músicas, comportamentos, enraízados na cultura popular de locais bem definidos e transformá-los numa vivência o mais autêntica possível e também, quase sempre, num produto turístico. Nem tudo é pacífico na definição do que é ou pode ser um rancho folclórico. Há posições mais “puristas” e outras mais “abertas”. Mas há também limites de bom senso para além dos quais se estará a propôr gato por lebre. Nem importa discutir as boas intenções das pessoas, porque isso não autoriza algo que não cabe na categoria de rancho folclórico a designar-se assim. É um ultraje aos ranchos folclóricos.
Há décadas, que se reflecte sobre esta actividade, não sou propriamente um entendido nos assuntos do folclore, mas todos temos consciência do investimento humano que a nossa região fez na actividade dos ranchos folclóricos. Durante quase um século identificaram-se e desenvolveram-se aspectos fundamentais caracterizadores de gentes e terras, elementos cuidadosamente encontrados, uns em raízes culturais profundas, outros em evoluções fundamentadas, em resultado do trabalho sério e esforçado de muita gente. Agora, em dois mil e dois, apresentar-se na praça principal de Caminha o Rancho Folclórico Verde Gaio, com trajos à minhota, e já aí com algumas invenções ao nível das cores de alguns fatos de lavradeira, com um reportório de danças e cantares de norte a sul de Portugal com ritmos e coreografias em estilo livre e despreocupado, onde um dos momentos hilariantes foi, por exemplo, os tais minhotos e lavradeiras em dança de Pauliteiros de Miranda com ritmo quase tropical, não pode ser encarado com naturalidade. E foi isto apresentado pelo Pelouro da Cultura da Câmara de Caminha, em pleno pico do verão, com o Terreiro cheio de gente de cá e de fora, um contributo valiosíssimo para a nossa cultura? Acho que não. Mesmo que aceitemos com tolerância a inverdade do espectáculo e as boas intenções das pessoas que vieram do Brasil, não podemos ignorar que estamos na região do país que mais projectou a actividade dos ranchos folclóricos. No pico da actividade turística, Caminha oferece este espectáculo aos visitantes, apresentado como se de folclore se tratasse, agravado com o entusiasmo cúmplice dos responsáveis da câmara que, com o brilhantismo a que nos vão habituando, trocam galhardetes em palco sobre a excelência da iniciativa. O que os impulsionou? Falta de sentido de oportunidade? Ignorância? Embriaguês pelo show? Não sei. Mas não posso deixar de reprovar.
3. Tony Carreira e Marco Paulo
“…músicos populares tão ao agrado dos nossos concidadãos…” “…que em férias gostam de ver de perto aqueles actores que através da música lhes lembram Portugal…” – são palavras da comissão política do PSD, e pela forma como explicam a importância destes pontos altos da animação fica claro um certo conceito de Portugal, uma certa visão cultural dos emigrantes. Faltará convicção aos senhores do PSD para afirmarem com clareza a criatividade inquestionável e o refinamento musical destas opções? Ou servem só porque lembram Portugal aos nossos concidadãos que nos visitam? O tal Portugal que também lhes é dado lá fora de modo que eles nunca se encontrem com o outro Portugal dos cultos, dos que ouvem o maestro António Victorino d’Almeida? É que a tal pretensão de possuir o “monopólio do bom gosto” de que me acusam é a teia em que estas explicações se enredam. Quem alimenta um estereótipo sobre o emigrante com padrões culturais tão óbvios é porque ainda não percebeu as mudanças emergentes nas comunidades portuguesas. Estive apenas duas vezes, por pouquíssimo tempo, junto de comunidades emigrantes. Uma no início dos anos oitenta, em França, outra em oitenta e nove, na Holanda. Em ambos os casos fiquei com a ideia de uma apetência por novidades, por qualidade, por um Portugal criativo. Trabalho notável de algumas associações culturais de emigrantes. Na Holanda acompanhei os concertos de Carlos do Carmo, José Mário Branco e António Pinho Vargas, em três cidades. Em todos esses concertos senti na comunidade portuguesa orgulho e prazer por estar a viver Portugal. Agora, se me disserem que há um circuito de produtos musicais de qualidade artística média, má, ou horrorosa mesmo (ou vamos achar que o Zé Cabra também é um fenómeno de gosto?), onde encaixa o fenómeno vulgarmente designado por “pimba”, que apoiado em estruturas comerciais fortes encontra facilidade em promover-se junto das comunidades portuguesas emigrantes, eu reconheço que existe. Mas não me parece boa política cultural reforçá-la cá. Ou será que os pelouros da cultura das câmaras devem seguir o “bom exemplo” das televisões? Render-se às audiências por padrões medíocres? Penso que não. A isto chamei de populismo redutor. O contrário disto não é necessáriamente elitismo, nem sequer “educação de massas”, como chegaram a insinuar.
4. Comparações
Estranham os senhores da comissão política do PSD, a minha sugestão de comparar a animação cultural de Caminha com a de outros concelhos menos vocacionados para a actividade turística. Estranham, mas aceitam a conclusão de que Caminha sairia menos bem dessa análise. Aí sacam da explicação número um do manual de apedrejamento político. Culpados são os outros, os que tiveram responsabilidades antes de nós. Estamos entendidos! Estiquem essa corda da irresponsabilidade até onde puderem, força! Por aí, chegaremos ao ponto de culpar D. João IV pelo recente aumento de impostos!
5. Notas finais
Convido a comissão política do PSD a TENTAR perceber que a crítica feita com a cara à mostra é um direito e um dever cívico e a REPOR A DIGNIDADE da participação democrática, reconhecendo que o futuro do concelho ganhará com debates sérios e empenhados na procura de melhores práticas políticas. Nestes propósitos contem com o Bloco de Esquerda.
Resta-me, desejar-lhe que se esforce um pouco mais nas suas reflexões porque a política da pedra na mão esgotou-se. Prometeram mudança, façam-na. Mas para melhor!
(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Outubro de 2002)