“A fúria da madrasta da Branca de Neve”

Setembro 30, 2002

Sabemos todos que o ano dois mil e dois depois de Cristo se iniciou em Caminha com novos protagonistas à frente dos destinos políticos do município. A dra. Júlia Paula apoiada pelo Partido Social Democrata convenceu a maioria dos eleitores deste concelho de que a mudança prometida lhes convinha. Descontadas as bolas, as esferográficas, as vedetas políticas nacionais e outros brindes publicitários, sobrou, cremos, o bastante contra os outros ou a seu favor para explicar a vitória democrática clara e responsabilizadora que obteve. Sobre isto não temos dúvidas. Há nove meses que a campanha eleitoral acabou e a hipersensibilidade a quaisquer críticas, conotando-as para as desvalorizar, não faz obra. São, agora, os resultados do trabalho do executivo municipal que o concelho avalia e as suas opções podem e devem ser objecto de opinião. Será legítimo pretender que seja de outro modo? Penso que não!

Tudo isto vem a propósito do direito de resposta utilizado pela presidente da câmara municipal de Caminha, que na última edição deste jornal, se insurge contra um pequeno texto de opinião publicado em número anterior e em que, de forma respeitadora mas frontal, reajo à propaganda desproporcionada exibida no quarto boletim informativo da autarquia em pseudo-balanço do seu próprio trabalho no âmbito da cultura. Escrevi esse texto com a convicção de que a diferença de opiniões é um dos fundamentos da democracia. Esperava tudo menos uma resposta rancorosa e de índole politiqueira. Tal resposta parece-me do pior que tenho lido e ouvido nos últimos tempos. Na colectânea de textos “Reino da Estupidez” Jorge Sena escolheu uma quadra de origem popular para iniciar um dos seus escritos que define exactamente o que penso sobre tudo isto: “Pilriteiro dás pilritos / Porque não dás coisa boa? / Cada um dá o que tem / Conforme sua pessoa!”.

A reacção da sra. presidente da câmara em tudo semelhante à fúria da madrasta da Branca de Neve quando o espelho lhe disse a desagradável verdade: que afinal não era ela a mais bela, toldou-lhe a lucidez. Impediu-a de defender de forma inteligente a sua política cultural. Manifestou e revelou emoções de quem assimila mal as práticas da democracia para além da legitimação do poder. Senão vejamos:

Primeiro – O autor da crítica nunca é tratado pelo nome no texto da sra. presidente. O autor da crítica é definido por “um senhor que a gente do concelho rejeitou enquanto candidato à câmara” que “não conhece os caminhenses e que os caminhenses também não o quiseram conhecer”, “alguém que se coloca à margem da comunidade”. Enfim, um proscrito, no entender da dra. Júlia Paula. Por falta de melhor explicação, teremos que concluir que o conceito de democracia desta presidente de câmara é muito peculiar. Com algumas semelhanças, perdoem-me o exagero, com o do sr. Adolfo do século passado que também chegou a ganhar eleições. Desse modo, quem perde eleições deve calar-se e deixar governar em sossego, bem ou mal, quem as ganhe. Não acredito que esta opinião seja partilhada mesmo pelos munícipes que votaram na sua candidatura. Porventura todos teremos muito caminho a fazer para valorizar a democracia, porém há formas de convivência democrática que dificilmente serão postas em causa pela maioria dos cidadãos. Estou convencido de que a senhora presidente, com esta atitude, estará a ficar mais isolada que o autor da crítica.

Segundo – Na sua precipitação nervosa em distinguir “nós” dos “outros” a sra. presidente identifica insultos e auto-elogios inexistentes. Os visados pela crítica que a sra. presidente num entendimento abusivo endossa a todos os munícipes do concelho e os outros, que são o autor da crítica e os que pensam como ele, que para melhor distinguir os contrastes pinta de “educadores de massas” de inspiração estalinista ou fascista. Pasme-se! Coisas que ficam entre o dito e o insinuado. Explicáveis, talvez, por sintomas de paranoia galopante. Porém, como não vivo nessa estreiteza da realidade partida em dois, fui público interessado, na medida da minha disponibilidade, nas actividades culturais que a câmara organizou; obviamente excluí aquelas que antecipadamente me pareciam claramente incompatíveis com o meu bem-estar. Como eu, suponho, estariam a maior parte dos públicos das iniciativas que foram decorrendo. Não estavamos lá para prestar vassalagem a ninguém. Não fomos a comícios de apoio à presidente da câmara. Fomos simplesmente usufruir de actividades que são pagas com os nossos impostos e sobre as quais temos o legítimo direito de avaliar cada uma e o seu conjunto. Ou estou enganado?

Terceiro e último – Sobre a classificação das críticas em construtivas ou não, é possível que a senhora presidente da câmara esteja a ver o assunto de pernas para o ar. Quem é criticado adquire o poder de utilização construtiva da crítica feita. No mínimo poderá servir para melhor esclarecer o ponto de vista do criticado através da qualidade da resposta. Mesmo a crítica mais truculenta pode ser construtiva se os visados tiverem espírito democrático. Por outro lado, todos conhecemos aquela imagem do velho ancião que aponta qualquer coisa no céu a um jovem patarata que insiste em olhar para o dedo que aponta e não para o local apontado.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Setembro de 2002)

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