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Verão ao Rubro em Caminha

Agosto 31, 2002

Sou um medíocre jogador de xadrez. Daqueles que só sabem mexer as peças, mas que nunca estudaram as intrincadas estratégias do jogo. Não me esforço em raciocínios que vão muito além da segunda ou terceira hipótese de jogada do adversário. Em miúdo, quando jogava com um amigo mais aplicado, acontecia, por vezes, surpreendê-lo com jogadas tão más que ele perdia tempo infinito a tentar perceber os meus propósitos. O disparate era tão óbvio que nem lhe parecia verdade. Na sua cabeça de jogador a sério punha-se a hipótese de estar a induzi-lo, sob aparência imbecil, para qualquer coisa inteligente. Perda de tempo a sua. Eu simplesmente estava distraído a pensar em qualquer outra coisa e, quanto à estratégia de jogo, era só inconsistência.

Esta minha vergonhosa performance como jogador de xadrez veio-me à memória quando estava a ler o quarto boletim informativo da Câmara Municipal de Caminha e não resisti a referi-la neste comentário. Porque aquilo que senti se assemelhará ao que o meu amigo, adversário no jogo, sentia nessas alturas. Quando leio “Animação de qualidade mostra potencialidades locais e não só – Verão ao Rubro em Caminha” em título, e depois continuo a ser obsequiado com o balanço da Câmara ao seu próprio programa de animação, nessa página e nas duas seguintes, dou comigo a tentar perceber o que lhes passará pela cabeça. Hesito. O surrealismo é tanto que parece alucinação de gente que descolou da realidade e entrou em dinâmica de fantasia e absurdo. Talvez não. Ingenuidade a minha. Talvez a lógica deste discurso se explique num desprezo assumido pela inteligência dos munícipes, aos quais se pensa poder impingir a propaganda que se quiser. Não. Estou a ser mauzinho. Posso acreditar nas pessoas. Quem avalia o seu desempenho daquele modo, embora isso seja espantoso para mim, pode estar dotado de valores muito diferentes dos meus e de todas as pessoas que eu conheço e portanto lidar com estas coisas sob um ponto de vista que eu não consigo perceber. Desisto. Não consigo entender o que lhes vai na alma. Mas nem por isso me impeço de deixar um recado à navegação.

O programa de animação cultural deste verão em Caminha é, passo a imagem, uma embarcação em deriva de populismo redutor. A disponibilidade, tantas vezes manifestada, do maestro António Victorino d’ Almeida, e agora utilizada pelo pelouro da cultura, e algumas poucas outras actividades de qualidade dão uma aparência de ecletismo ponderado a uma programação globalmente mediocre, com um protagonismo dos responsáveis da Câmara excessivo, muitas vezes despropositado e até ridículo. Em contraponto à qualidade das segundas-feiras do maestro e seus convidados, interessantes e pedagógicas, a animação teve os seus picos no Marco Paulo e Tony Carreira, esses sim em tempos e espaços de grande público. Mas o pico dos picos, o mais difícil de escalar, foi aquela memorável noite do Terreiro em que o dito Rancho Folclórico Verde Gaio do Rio de Janeiro nos mimou com uma delirante mescla de folclore com espectáculo para casino em estilo de cultura superior. Aquele estilo que não precisa de prestar atenção a muitas décadas de pesquisa etnográfica em Portugal, por homens da cultura como Leite de Vasconcelos, Cláudio Bastos, Abel Viana, Pedro Homem de Melo ou Amadeu Costa. Anos e anos de pesquisa e caracterização da identidade dos ranchos folclóricos. Comportamentos, danças, trajos e adornos que resultaram da identificação de raízes culturais ou em evoluções fundamentadas. À custa do trabalho sério de muita gente. Não valem nada quando o show precisa dos condimentos da espectacularidade fácil. Por isso os fatos de lavradeira podem ser livremente alterados e um rancho minhoto pode dançar qualquer coisa, de qualquer ponto do país, o ritmo também pode ser tropicalizado, porque não? Tudo isto aconteceu, suponho que integrado no prestimoso interesse pelo folclore que esta Câmara parece definir como fundamental para a sua actividade cultural. A certa altura do espectáculo subiram ao palco, deslumbradissimos, o sr. vereador do pelouro da cultura e a sra. presidente da câmara. O momento foi escolhido para elogiar de forma empolgada o extraordinário trabalho do pelouro da cultura. É caso para se dizer aquele lugar comum: “com amigos assim, o nosso folclore não precisa de inimigos”.

Vistas as coisas assim, do lado de fora, e desculpem-me os responsáveis da câmara se não estou a ser muito sensivel ao seu esforço, se quiserem dar uma olhadela na programação de outros municípios, com potencial turístico muito menos assumido, e usarem uma balança normal na avaliação de desempenhos, irão concerteza ao rubro, mas não será de entusiasmo.

(texto publicado nos jornais “O Caminhense” e “caminha2000″ em Agosto de 2002)